Não havia presenciado tamanha intensidade de chuvas em Mato Grosso do Sul, como estas dos últimos dias. Em 30 dias, na região sul do Estado, já choveu 50% do que deveria ocorrer ao longo de 1 ano.
A chuva em si, não seria problema, se não houvesse o nível de degradação existente no meio ambiente. As florestas destruídas e o que a lei determina não é respeitado. As áreas de preservação permanente (as APPs) não são respeitadas e o que se vê são áreas úmidas e mananciais hídricos degradados. Também, poucos são os gestos pelas áreas de Reserva Legal – as ARLs. Aí estão símbolos da irresponsabilidade ambiental que praticamos.
A nossa agricultura e, particularmente, a pecuária, está longe de níveis razoáveis de sustentabilidade ambiental. A prática ainda consiste em escoar a água para os córregos, quando deveria retê-la no campo, por meio de equipamentos de reservação e facilitação da infiltração no solo para melhor conservar umidade aos cultivos e aos animais.
As cidades não tem planejamento de uso correto do solo urbano e invadem APP, colocando as pessoas no risco, em áreas de alta vulnerabilidade ambiental, como vales, beira de rios e corredores de água.
Assim, não tem jeito. A falta de conhecimento, ganância e egoísmo, juntos não podem ser guias da irracionalidade. Infelizmente a degradação ambiental tem raízes na pobreza e na concentração da riqueza que estimulam o extrativismo predatório dos recursos naturais e prejudicam a saúde e a qualidade de vida da população.
A região sul do Estado, compreendendo, pelo menos 12 municípios, é um ecossistema de alta vulnerabilidade ambiental, pelos seus caracteres edáficos. É uma região constituída por solos frágeis com mais de 70% de areia. Nestes solos desprotegidos, a chuva leva tudo, estradas, pontes, casas, lavouras e, sobretudo, a autoestima das comunidades. Estimativas mostram que os estragos ocorridos representam a perto de R$ 1.000,00 per capita. Isto é, os consertos chegarão perto de R$ 100 milhões. Quem vai pagar isso? Serão os infratores ambientais? Não, seremos todos nós contribuintes, subsidiando os crimes ambientais.
Há outros danos, da morte dos córregos e rios, consequência do assoreamento e da contaminação química que fragilizam a vida aquática e silvestre.
Nesta hora precisamos do Ministério Público, afinal alguém tem de agir no sentido de corrigir erros e minimizar efeitos nocivos aos ecossistemas, à saúde e a qualidade de vida da população. Até porque parece haver conivência da autoridade, associada a processo contaminado de licenciamento ambiental que permite que tudo se faça, não pelo interesse público, mas pelo particular.
A grande questão: Se houve respeito e punição aos crimes ambientais, os estragos da “chuvarada” seriam os mesmos? Será que a natureza não tem razão ao demonstrar os efeitos da nossa irresponsabilidade?
“Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções à crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam solução vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas”. CARTA ENCÍCLICA - LAUDATO SI’ - FRANCISCO
* O autor é Engenheiro Agrônomo/Consultor Ambiental
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