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Opinião

ARTIGO: Pilatos, as “maçãs podres” e a política

15 de abril 2016 - 12h51 Por Marcelo Mourão
ARTIGO: Pilatos, as “maçãs podres” e a política

 mm boa A expressão “lavar as mãos” nos remete quase automaticamente a Pôncio Pilatos. Embora convicto da inocência de Jesus e tenha verbalizado essa convicção (“Estou inocente do sangue deste justo”) o então governador da Judéia preferiu ficar “bem na foto” com os que queriam a condenação de Jesus mas queria ficar bem principalmente com César, ditador absoluto de Roma. Uma absolvição de Jesus por Pilatos seria considerada uma traição a César e, claro, o governador de Roma preferiu “lavar as mãos” e entregar Jesus ao povo ensandecido. Agradou a todos e livrou a própria cabeça da ira do imperador.

Abri esse artigo com essas considerações teológicas, embora teólogo não seja, para trazer a expressão “lavar as mãos” para os dias atuais. As manifestações que vem ocorrendo no país nos últimos anos e que alcançaram seu ápice nos últimos dias mostram que, ao contrário de Pilatos, o povo brasileiro não está “lavando as mãos”. Contra ou a favor deste ou aquele ponto de vista, com a natural e salutar divergência de opiniões, a política está na pauta das redações, nas conversas de bar, na fila de ônibus e em todos os espaços.

No nosso dia a dia somos quase a cada minuto submetidos a escolhas. Desde a roupa que vamos usar, o trajeto que seguiremos até o trabalho ou o estudo até o canal de TV que iremos assistir, passando por infinitas outras situações, temos que decidir. Essas são escolhas individuais. Mas, e quanto às escolhas que dizem respeito não apenas à nossa vida pessoal? Penso que esse é o dilema da política e dos políticos. Ainda no campo da etmologia das palavras, o termo política tem origem no grego politiká, uma derivação de polis, que designa aquilo que é público. A política é, em última análise, a ciência da governança e também a arte de negociação para compatibilizar interesses. Na democracia, a política deve obedecer a lógica do filósofo Aristóteles: “O todo deve, necessariamente, ser posto antes da parte”.

Todas as atividades, porquanto, desempenhadas por humanos, tem pessoas de boa índole e as maçãs podres. No caso da política, as “maçãs podres” vêm de há décadas invertendo a lógica aristotélica de colocar o interesse coletivo antes do interesse particular. A regra dessa turma, na qual não me enquadro e penso deva ser extirpada da vida pública, é cuidar primeiro dos mais chegados, dos parentes e amigos, só depois tratar dos outros, do conjunto da polis. É por conta dessa inversão de valores que com certa razão muitos são inclinados a pensar que todos são farinha do mesmo saco.

Acredito, e tenho defendido em todos os espaços que posso, o resgate da boa política. A política pode, sim, ser exercida com ética, com amor e seriedade. Para que isso aconteça, é fundamental que as pessoas de bem votem nas pessoas de bem. É fundamental também que as pessoas de bem se interessem pela política, disputem eleições e ocupem os espaços de poder. A informação é a melhor régua para o eleitor medir o grau de comprometimento tanto dos que já possuem mandato como daqueles que se apresentarem como candidatos. Pesquise. Avalie. Ouça os seus amigos. E vote com segurança, pois o erro de um minuto pode significar quatro anos de decepção.

Precisamos dar um salto qualitativo nas práticas políticas. Um bom passo é estimular e disponibilizar mecanismos de participação da população na política. Em 2013 propusemos que a Câmara Municipal desenvolvesse o programa Parlamento Jovem, a exemplo do que já faz a Câmara dos Deputados. Seria uma oportunidade de trazer os jovens para “dentro” da Câmara, para que desde cedo aprendam como se dá o processo legislativo, a divisão de poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e fossem “vereadores” por determinado período. À época a proposta não “andou”. Reforcei há poucos dias, na tribuna da Câmara, que fosse reestudada.

Finalizo este artigo com a opinião de que “lavar as mãos” nunca é a melhor opção. Pilatos “lavou as mãos” e deu no que deu. Se “lavarmos as mãos” no que tange à participação na política, as “maçãs podres” continuarão a contaminar o cesto.

Pensemos!!!

* O autor é Vereador em Dourados e suplente de Deputado Federal