foto erminio
Eu que estive na origem do “Problema Agrotóxico”, vi a votação da PL 6299/02, na Câmara dos Deputados como um retrocesso. O projeto está a serviço da indústria e não dos agricultores e muito menos da população brasileira. Ele fortalece o modelo tóxico carbonizado e da concentração de renda, rejeitado no mundo e aqui tratado como prioridade. O modelo se dedica a beneficiar meia dúzia e amplia a insegurança alimentar, porque não produz alimentos saudáveis e amplia a doença e a fome.
O projeto exclui a soberania alimentar e sem veneno na mesa. Lembro da pesquisa realizada pela Agência Publica e a Public Eye, Suíça, sobre base de dados do Ministério da Saúde - Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água (VIGIÁGUA), das empresas de abastecimento, obrigadas por lei, sobre a qualidade da água que abastece a população, no período entre 2014 e 2017, nos municípios brasileiros. A conclusão: Em 1.396 municípios foi encontrado “Coquetel” de 27 agrotóxicos na água que os brasileiros tomam diariamente. O levantamento inédito mostrou haver agrotóxicos perigosos na torneira da população. Ou seja, 1 em cada 4 municípios, estariam abastecendo a população com água envenenada. Apenas 13,7% das amostras não apresentaram presença de agrotóxicos e dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na água entre 2014 e 2017.
Entre os estados com coquetel de 27 agrotóxicos estão, São Paulo (504 municípios), Paraná (326), Santa Catarina (228), Tocantins (121), Mato Grosso do Sul (65), Minas Gerais (50), Mato Grosso (30), Rio de Janeiro (10), Sergipe (15), Rio Grande do Sul (14), Espírito Santo (8). Do coquetel dos brasileiros, 16 foram classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 associados à doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Em mais de 80% dos testes, há cinco classificados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos como “prováveis cancerígenos” e seis pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas. Ainda 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente.
Teria mudado esse quadro de 2017 até hoje? Com certeza, não! Ao contrário, piorou! Mais veneno liberado pelo MAPA e maiores doses em poucos produtos. Exemplo. Mais intensidade de Glifosato. Pergunto: qual ecossistema suporta tamanha agressão? Imaginemos o Rio Grande do Sul coberto de ponta a ponta por um veneno extremamente perigoso, aplicados sobre plantas transgênicas. O que pode acontecer na saúde ambiental e da população? No passado, em menor escala, o DDT, que ainda hoje aparece no leite materno dado aos bebes, como encontrado em Lucas do Rio Verde – MT, em pesquisa da UFMT.
De 2017 a 2021 foram liberados 2.321 novos venenos agrícolas, segundo o MAPA. Seria justificativa de livre concorrência? Pode até ser, mas quando o argumento contraria a ética, nada é aceitável. A propósito: Os parlamentares governistas não sabem disso, ao abrir as porteiras ao veneno? Ou desconsideram o interesse público e servem a outros?
Na verdade, ao sistema não interesse outra coisa que não seja a dependência. Os agricultores estão reclamando da falta e dos preços dos insumos agrícolas. Por que, isso ocorre? O governo e seus parceiros políticos, em vez de construir campos de soberania agrícola, ao contrário, se prestam a fortalecer a dependência crônica.
Toda a luta não deve findar, enquanto houver evidências de riscos na causa.
Pensem nisso!
* É Eng. Agrônomo, consultor/sustentabilidade