foto erminio
O Dia dos Povos Indígenas – 19 de abril - data comemorativa criada em 1943, por Getúlio Vargas, no Estado Novo. A criação se deve ao Congresso Indigenista Interamericano acontecido no México, em abril de 1940. O objetivo é celebrar a diversidade das culturas e das histórias dos povos indígenas, no Brasil.
Momento de refletir sobre os 522 anos da relação indígena – não indígena. A historiografia diz que, quando os portugueses chegaram, haviam perto de 5 milhões de indígenas e falavam mais de mil línguas, numa das maiores diversidades culturais do mundo. Em média, o Brasil matou 1 milhão de indígenas a cada 100 anos. Em 1800, estavam reduzidos a 700 mil e hoje, graças as políticas do início do Século, segundo o IBGE, a população está próxima de 1,5 milhões de indígenas, falando 274 línguas, em 305 povos.
Uma história de lutas. Indígenas se confundem na escravidão, do Brasil. Evidente, mais africanos, mas a história dos indígenas só não é maior porque esconde a escravidão indígena. Mesmo assim, alguns casos são emblemáticos, a partir de 1530, quando Fernando de Noronha vendeu os primeiros escravos indígenas na Espanha. A cana de açúcar, no Sudeste e Nordeste, assanhou Bandeirante na caçada indígena nas Reduções Jesuíticas. Milhares foram levados do Itatim (MS), Guairá (PR) e do Tape (RS), como escravos dos “Senhores de Engenho”. Não conheciam a força nativa a resistir a outra cultura e fugir, sem chances de recaptura, porque conheciam a natureza.
O Rio Grande do Sul deve aos guaranis, parte dos limites territoriais, devida a luta contra os Bandeirantes e depois contra Espanha e Portugal. Contra a caçada indígena dos Bandeirantes, em 1639 a primeira vitória na batalha de Caazapaguaçu. Em 1641, a vitória de M’Bororé, que foi definitiva, mas deixou a destruição das reduções do Tape. Em 100 anos de paz, construíram as reduções dos 7 Povos da Missões, sob o domínio espanhol.
Em 1750, o Tratado de Madri para pacificar a luta pela terra e a Espanha entrega a Portugal o território dos 7 povos, em troca da Colônia do Sacramento (Uruguai), ocupada pelos portugueses. Os indígenas não aceitaram. Então os dois se uniram os revoltosos do território cedido, dando origem a Guerra guaranítica ou Guerra dos 7 Povos, ocorrida entre 1753 e 1760, quando as missões foram destruídas. Na contenda, contra forças luso-espanhola, em 1756, na Batalha de Caiboaté, tombou o líder guarani Sepé Tiaraju. Caia o maior símbolo da resistência. Em 1777, o Tratado de Santo Idelfonso, devolveu os 7 Povos aos espanhóis, mas tempo depois, abandonaram ao domínio português, no limite do Rio Uruguai.
No território de Mato Grosso do Sul a presença indígena, Guarani/Kaiowa em toda região sul do Estado, coberta por erva mate. Após a Guerra no Paraguai, o Império concedeu a Cia. Mata Laranjeiras o direito a explorar erva mate na região. A primeira consequência foi a Companhia escravizar indígena. Muitos morreram carregando “Raído de Erva Mate” pesando até 200 kg, a longas distâncias. A Cia. Matte Laranjeira se tornou poderosa, no ingresso dos irmãos Murtinho, afinados no Governo de Cuiabá e se tornou - establishment ervateiro. Foram quase 50 anos de escabrosas histórias, dum Estado paralelo, que usou mão de obra escrava indígena e lutou com migrantes sulistas que vieram atrás de terras. A segunda consequência foi o Estado recolher os indígenas em áreas reservadas, para não atrapalhar os colonizadores. Um povo que vivia em liberdade na natureza, de repente, se viu confinada em espaços fechados e os que resistiam, até o topo das árvores, desciam na bala de caçar animais silvestres.
Uma história de muita dor no luto, que reforçou a consciência ancestral, para resistir e manter os laços socioculturais, vivências tradicionais e autenticidade ecológica, na Mãe-Terra. Resistor ao massacre sociocultural e prisional, para não perder a reprodução de vínculos da identidade à “Mãe Natureza”. Em 2021, no Dia da Terra, os povos declararam - “a luta pela Mãe-Terra é a mãe de todas as lutas”. - A Mãe-Terra está morrendo! O clima mudou. Falta água e ficou difícil respirar. O alimento escasseou e a esperança diminuiu. Nossos santuários naturais, estão invadidos e causando feridas profundas. Espíritos da natureza estão nos abandonando! - Mas te pedimos, Generosa Mãe – não desista de nós! Percepção de que a terra morta significa a própria morte.
O erro do Brasil, foi não demarcar as terras indígenas, no Séc. 19, junto da abolição da escravatura e da Proclamação da República, como fizeram outros países. Assim, não haveria a luta fratricida que envergonha a Nação. Em vez disso, recolheu indígenas a confinamentos, em pequenas áreas, muitas fora do habitat natural, para não atrapalhar a colonização, como ocorreu no MS. Essa é uma questão mal resolvida que sangra diariamente. A luta de indígenas querendo reaver suas terras e “não indígenas” querendo “terras indígenas” é encrenca sem fim. É preciso evitar os reiterados massacres humanos, que ocorrem no País. Só tem uma saída – o governo comprar as terras e devolvê-las aos donos originários.
Afinal, não é razoável, ignorar os legítimos direitos dos indígenas sobre a terra ancestral. O mesmo direito que é dado a “não indígena”, em posse sobre terras griladas e depois tituladas, deve ser aplicado ao caso. Não é razoável o desrespeito aos indígenas, na formação da sociedade brasileira, na cultura, na língua, nas artes, culinária, costumes, etc. Falta reconhecer a mestiçagem de 50% da população, no sangue indígena e negro. Não é razoável, a visão intolerante e genocida pelo extermínio indígena, como ocorreu na Ditadura e nestes tempos raciastas, no País. São “Cicatrizes” da “lógica parasitária” alojada na capacidade cognitiva do homem, em perseguição aos indígenas. A semelhança do nazismo, uma minoria reacionária, gosta de “raça pura” (impossível no Brasil), talvez por interesse nas terras indígenas.
Enfim, coisas que nem todos gostam, mas precisam ser ditas. Necessário outro olhar aos indígenas. O ocorrido na Terra Yanomani é crime insano, cruel e frio. Destruir habitat natural, roubar recursos naturais e promover genocídio, envenenando o ambiente, além de atrocidades como escravização e estupros de meninas e mulheres adultas, é inaceitável. Como explicar essa neurose acumulativa e discriminatória, que não seja pelo desejo sádico de satisfazer carências existências, através do crime?
Na emergência climática, preocupações ao Aquecimento global, Efeito Estufa e ao Colapso Climático e olhares às terras indígenas, as mais preservadas e capazes na contribuir na meta de “carbono zero”. “Amamos a floresta e a floresta nos ama", disse Txai Suruí, na COP26. Juma Xipaia, também presente na COP26, mexeu com Leonardo DiCaprio. “Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática. O olhar xamã Yanomami, fala dos espíritos Xapiris, que descem das montanhas para brincar nos espelhos da floresta, para ajudar o espírito humano, em sabres tradicionais - “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os reios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor”.
Pensem nisso!
* Consultor/Sustentabilidade