erminio guedes
“Se queres ser universal, começa por pintar a sua aldeia”. Leon Tolstói
Importante a verdade histórica, pois ela permite compreender o legado da sociedade andante. Neste caso, o legado da Revolução Farroupilha (1835/1845), comemorada em 20 de setembro, no dia do gaúcho.
Em 1947, 8 jovens, filhos de estancieiros, estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre (RS), motivados pelo sentimento telútico, criaram a “Chama Crioula”, a partir da Semana da Pátria, que se tornou símbolo da data comemorativa.
Narrativa solo controverso da Revolução Farroupilha, como pérola política do berço maçônico, numa espécie de rebelião oligárquica de estancieiros, contra impostos incidentes sobre a principal atividade econômica da época, a produção pecuária de exportação de charque, couro, graxa e derivados bovinos. No campo político, insatisfações na nomeação do então Presidente da Província, Antônio Rodrigues Fernandes Fraga, sem acordo prévio com as elites gaúchas.
Assim, sob a liderança militar de Bento Gonçalves, a oligarquia local arquitetou movimento de contestação às políticas autoritárias do poder regencial. No pano de fundo, o liberalismo, visando a independência provincial, para ganhar mais autonomia política econômica a então Província Riograndense.
Como sempre, os desentendimentos ocorrem “por dinheiro” e pelo poder político. Assim, nas guerras pelo domínio territorial e suas riquezas, que aumentam poder financeiro e político dos “ganhadores”, para “escravizar perdedores”.
O pensamento iluminista e os ventos liberais vindos da França de 1789, embalavam a revolta sulista. O liberalismo falava no direito de propriedade, adaptado a diferentes contextos históricos. Carregava ainda o pensamento 1776: Uma pessoa incapaz de adquirir propriedade não pode ter outro interesse senão comer o máximo e trabalhar o mínimo. Se algo fizer, além do suficiente para pagar a própria manutenção, só fará mais se isso a beneficiar, sendo impossível obriga-la a fazer mais sob violência. (SMITH, 1983, p. 328).
Na Revolução Francesa, em 1789 o tríptico pensamento liberal: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como laço de união entre os homens, fundado na igualdade de direitos de todos os seres humanos livres. A revolução farroupilha, no mesmo alinhamento, afirmou ideais de “liberdade, igualdade e humanidade”, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas sem respeitar o direito aos seres humanos serem livres.
Em geral, os autores divergem, mas alinham na visão dos “ganhadores”, endossando a versão oligárquica da época. O controverso pensamento liberal, deixa claro o ideal revolucionário, na resolução de problemas rurais e da renda dos estancieiros e não das estruturas sociais da Província. Via de regra, a história é escrita em versões conservadora do sistema dominante, como é neste caso. As lideranças farroupilhas não tinham em pauta mudanças socio estruturais. A maioria dos farroupilhas era escravocratas. Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida, José Gomes de Vasconcelos Jardim e Antônio Vicente da Fontoura, conservaram seus escravos durante a guerra civil e os mantiveram depois.
Para Olgário Paulo Vogt, da Universidade de Santa Cruz do Sul (RS), a relação entre liberalismo e escravidão sustenta os revolucionários na defesa de projeto de sociedade liberal e escravista, limitando acesso a direitos civis e políticos. O fato é que a Revolução Farroupilha não mexeu na estrutura econômica e social do período colonial. Os farroupilhas nunca aboliram espontaneamente a escravidão constituída. Situação que reproduzia o que havia no Império, como afirma com propriedade Bosi (1999, p. 216).
No entanto, grande contingente de escravos, indígenas e servis das estâncias, foram levados à guerra civil e outros, fiéis ao Império, foram seduzidos, com promessa de liberdade, após o conflito. "Em vez de cederem a própria mão de obra, os farroupilhas capturavam os negros que serviam aos imperiais ou estavam foragidos, com a promessa de alforria após o fim da guerra", explica o jornalista Juremir Machado da Silva, autor de História Regional da Infâmia: o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras (L&PM, 2010).
Fato histórico da participação de escravos negros na guerra. História da infâmia (traição/emboscada/chacina): o destino dos Lanceiros Negros massacrados no Cerro dos em Porongos, em 14/11/1844, no atual município de Pinheiro Machado (RS). Corpos de lanceiros negros e de índios, foram mercadorias ao acordo de Ponche Verde, liderado por David Canabarro e Caxias, o representante do exército imperial, para dar fim a revolução.
https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2022/06/lanceiros-negros-projeto-resgata-historia-de-escravizados-traidos-na-revolucao-farroupilha
De quanquer forma, um legado importante da Revolução Farroupilha, na formação da sociedade gaúcha, mesmo que, em muitos casos, em idas e vindas, a história não reprosuza fielmente a verdade históriCa. Este 20 de setembro tem o maior valor no sentido lúdico cultural e, como tal, importante para manter simbolismos na identidade social e marca cultural do povo gaúcho.
Pensem nisso!
* É Consultor