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Gilberto Avelino Mendes

'Daniéis' na cova dos Leões

02 de dezembro 2024 - 06h55 Por Gilberto Avelino Mendes
'Daniéis' na cova dos Leões policial penal

Todo policial penal é um Daniel.
Aprendi isso muito tempo atrás 
quando fui atirado numa cova dessas que é uma cadeia.
Somos mesmo, acreditem, homens e mulheres, todos nós Daniéis.
Nossa luta diária é sobreviver a todos os leões dessa cova.
Os presos são leões.
O sistema é um leão.
O governo é um leão.
Tem companheiro que é leão.
Tem chefia que é leão.
Esta cova está cheia de leões 
E todos eles querem a carne dos Daniéis.
Estamos perdidos. 
Esquecidos dentro dessa cova.
Jogados aos leões...
Para eles, os leões, nossa carne é macia 
e o gosto deve ter bom sabor. 
Não se cansam de nós.
Para eles somos indefesos, incapazes de nos defendermos.
Gritamos e não somos ouvidos.
Tentamos escalá-la, fugir dela, mas a cova é funda demais.
Nossas lágrimas é o vinho mais sofisticado da taça de cristal deles.
O que nos sobra é as migalhas que caem da mesa dos leões.
Sempre damos tudo de nós. 
Não podemos entregar menos.
Primeiro pedem nosso suor, e como bom Daniel, entregamos.
É sempre pouco. 
Pedem sangue... nosso sangue...
E o entregamos num cálice dourado de um plantão qualquer.
Vemos o sangue escorrer e colorir de vermelho o chão dessa cova.
E os leões estão lá, todos eles, devorando a carne 
e palitando seus dentes com a zombaria de seu descaso.
Nosso sacrifício é sempre em vão.
Nosso sangue somente alimentou o ódio 
e o esquecimento deles por nós.
Nosso sentimento é que somos odiados pelo que somos...
Odiados por eles que deveriam nos cuidar....
Para eles, somos apenas Daniéis jogados na cova dos leões.
O que eles todos não sabem,
Não sabem porque não prestam atenção em Daniéis,
Que tudo que esta cova nos ensina é a lutar...
Sempre lutamos, todos os dias, todas as horas,
Em cada minuto de nossa vida... luta... luta...
Tudo o que temos é o outro Daniel.
Daniel deve cuidar do Daniel.
Nossa mãe se comporta como uma madrasta.
Nosso pai é incapaz de enxergar nosso valor
E nunca nos valorizou.
Agora, nos jogaram dentro de uma outra cova agora...
Uma lei, uma regulamentação que nunca vêm...
Nos encheram de atribuições,
E querem nos pagar com migalhas de suas mesas
Fartas e suntuosas.
Ergam-se, Daniéis!
Nos amemos mais do que antes, mais do que sempre.
Estamos feridos e presos contra as paredes dessa cova.
O futuro nos dirá quem seremos
E as linhas dessa história estará sendo escrita agora...
Com nosso sangue...
(como sempre o foi!).
Só o que queremos é a nossa valorização,
Reconhecimento pelo que somos,
Pelo que fazemos,
Nada mais... Nada menos...
Leões, chegou a hora de nos valorizarem...
Os Daniéis estão saindo de suas covas...

* É Policial Penal