O movimento Maio Amarelo de 2026 traz uma reflexão necessária para toda a sociedade: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.” A mensagem vai além do ato de olhar. Significa reconhecer a existência, as necessidades e a vulnerabilidade de quem divide os espaços de circulação.
Mas, diante dessa proposta, surge um questionamento importante: os pedestres e ciclistas estão sendo realmente enxergados nos trechos urbanos das rodovias BR-163, BR-463 e no anel viário em Dourados?
Essas vias possuem intenso fluxo diário de veículos leves e pesados e, embora sejam rodovias, exercem também função urbana. Cortam bairros populosos, conectam regiões da cidade e fazem parte do deslocamento cotidiano de trabalhadores, estudantes, ciclistas e moradores que precisam atravessar ou percorrer esses trechos para acessar serviços essenciais.
A realidade, porém, evidencia um cenário preocupante. Em muitos pontos, faltam espaços seguros destinados à circulação de pedestres e ciclistas, obrigando pessoas a compartilharem a pista de rolamento com automóveis, caminhões e ônibus. Onde existem acostamentos, frequentemente apresentam condições precárias, largura insuficiente ou descontinuidade, tornando-se inadequados para circulação segura.
O resultado dessa combinação entre alta velocidade, grande volume de tráfego e ausência de infraestrutura adequada aparece nas estatísticas e nas ocorrências registradas: atropelamentos graves e fatais continuam sendo registrados nesses trechos urbanos.
Quando uma pessoa caminha pelo bordo da rodovia ou utiliza a bicicleta na faixa de circulação por falta de alternativa segura, o problema deixa de ser apenas comportamento individual e passa a envolver planejamento urbano, mobilidade e segurança viária.
O conceito de Sistema Seguro, previsto no Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS), reforça justamente que o ambiente viário deve ser projetado para proteger vidas, especialmente dos usuários mais vulneráveis. Isso significa investir em vias seguras, espaços segregados para ciclistas e pedestres, iluminação adequada, travessias protegidas e infraestrutura que reduza riscos.
Enxergar o outro, como propõe o Maio Amarelo, também é reconhecer que o trabalhador que segue de bicicleta para o serviço, o estudante que atravessa a rodovia ou o morador que caminha entre bairros precisam de proteção. Precisam ser considerados no planejamento viário. Precisam ser vistos.
Porque, nos trechos urbanos das rodovias, enxergar pedestres e ciclistas não deve ser apenas uma atitude do condutor ao volante — deve ser também uma prioridade das políticas públicas e da construção de uma mobilidade mais humana e segura.
Salvar vidas começa quando ninguém é invisível no trânsito.
* José Carlos Torraca é Agente de Segurança Viária, membro do Observatório Nacional Maio Amarelo






