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Federal procura corpo do cacique Nízio, confirmado como morto

20 de julho 2012 - 12h00 Por Redação Douranews
Federal procura corpo do cacique Nízio, confirmado como morto

A PF (Polícia Federal) de Ponta Porã concluiu nesta semana a segunda fase das investigações do inquérito policial que foi instaurado para apurar os crimes decorrentes do ataque ao acampamento indígena Guayviry, situado no município de Aral Moreira, no dia 18 de novembro do ano passado. Na ocasião, o cacique Nízio Gomes foi apontado como morto, porém, até hoje não foi localizado o corpo da vítima. Conforme a assessoria de comunicação da PF, foram 23 pessoas indiciadas, das quais 18 estão presas por mandados de prisão preventiva em vista de seus indiciamentos pelos crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de testemunhas. Houve ainda o indiciamento de um funcionário da Funai pelos crimes de formação de quadrilha e coação no curso do processo. Esse funcionário teria tentado coagir uma importante testemunha a mudar o depoimento na polícia. Como o caso ainda tramita em segredo de justiça, os nomes dos indiciados não serão divulgados pela Polícia Federal, assim como detalhes específicos sobre as investigações, informa a assessoria. Assim, o Douranews também não levanta hipóteses sobre as quais muito já se especulou em noticiários. Dentre os presos, 10 pessoas são ligadas a uma empresa de segurança privada da cidade de Dourados, diz a PF, incluindo o proprietário e gerentes. Essa empresa seria embora a Polícia não confirme, a Gaspem Segurança, localizada na região da Vila Industrial, e o proprietário, o empresário Aurelino Arce, que inclusive se envolveu em conflito com a ex-namorada e acabou sendo baleado. Ele teria sido, também, denunciado pela própria como forma de retaliação por não atender aos pedidos da ex. Há ainda, segundo a Federal, seis fazendeiros da região de Ponta Porã e Aral Moreira, incluindo um que é presidente de um Sindicato Rural no Estado. Entre os presos, também está um advogado do Paraná. Como já divulgado anteriormente, as novas provas colhidas pela Polícia Federal apontam que efetivamente o cacique Nízio Gomes foi morto no acampamento e seu corpo teria sido levado do local em uma caminhonete, sendo os executores do ataque as pessoas vinculadas à empresa de segurança privada de Dourados. Após isso, o corpo do cacique Nízio Gomes teria sido ocultado pelos fazendeiros que atuaram como “mandantes” do ataque aos índios, segundo a nota da PF. O local onde o corpo do cacique teria sido “desovado” ainda está sob investigação da Polícia Federal. Pelo que consta, alguns dos fazendeiros presos sabem exatamente onde o corpo estaria escondido, no entanto nenhum deles demonstrou interesse em colaborar com as investigações e informar o local. Ao que parece, acrescenta a nota da Polícia, “este seria um dos principais motivos que justificariam o prolongamento das prisões, pois, se mesmo estando presos a estratégia até agora utilizada pelos fazendeiros está sendo a de negar qualquer envolvimento com os crimes (apesar de entrarem em contradição com outras provas produzidas), estima-se que, se postos em liberdade, o corpo dificilmente será encontrado dada a vastidão de áreas não habitadas nesta região de fronteira com o Paraguai”. Após a morte do cacique Nízio e a ocultação do corpo, alguns dos fazendeiros indiciados tentaram se utilizar de técnicas escusas para dificultar o trabalho da polícia, chegando inclusive a contratar um indígena de outra aldeia para fingir que estava ajudando nas investigações, mas na verdade estava passando informações erradas, diz a nota da Federal. Os fazendeiros e o advogado que foi preso orientaram esse indígena a dizer para a Polícia Federal que o cacique Nízio estava vivo e morando com familiares em uma aldeia no Paraguai, pois na visão deles a polícia nunca iria ter como checar estas informações e com isso iria sempre perdurar a dúvida sobre a morte da liderança da comunidade. As investigações levaram os policiais a provar ao indígena-informante que ele estava indicando pistas falsas. A partir daí, ele resolveu falar a verdade de que Nízio Gomes estava morto e que ele havia sido contratado pelos fazendeiros para tentar ludibriar a polícia. “Em troca, os fazendeiros prometeram a ele uma grande quantia em dinheiro (uma parte pequena foi efetivamente paga) além da contratação de um advogado, caso fosse necessário, e ainda fizeram a promessa de que iriam adotar as providências necessárias para elegê-lo vereador nestas eleições”, relata a PF. Antes do ataque ao acampamento Guayviry, este mesmo indígena tinha sido contratado pelos fazendeiros para tentar negociar com o cacique Nízio Gomes a saída do grupo da área “em troca do pagamento de uma grande quantia em dinheiro”, mas como o cacique não aceitou, os fazendeiros resolveram contratar a empresa de segurança privada para realizar o ataque ao acampamento. As armas utilizadas no ataque ao acampamento Guayviry foram fornecidas pelos fazendeiros. São espingardas calibre 12, com munições classificadas de “menos letal”, porém, segundo a Polícia Federal, “se o disparo for feito em curta distancia ou se for utilizada de maneira inadequada, pode ser tão letal quanto uma munição comum”. Uma das pessoas presas que participou da execução do ataque ao acampamento confessou em interrogatório que o cacique Nízio foi atingido por um disparo na região subaxilar e que ele havia participado da retirada do corpo do local do ataque, tendo inclusive verificado o pulso da vítima e constatado a efetiva morte do índio. Este indiciado esclareceu, inclusive, que houve pouco sangramento do cacique Nízio, o que se coaduna com o que foi descrito no laudo pericial de que havia pouco sangue no local dos fatos. A Polícia Federal ainda está promovendo diligências no intuito de encontrar o corpo de Nízio Gomes, diz a nota. Para esse trabalho, a delegacia da Polícia Federal de Ponta Porã contou com o reforço de policiais que integram a Operação Sentinela, atuante na fronteira e que interviu também no caso do ataque ao acampamento Guayviry. Os fazendeiros e o advogado encontram-se presos na delegacia de Ponta Porã, de onde deverão ser removidos ainda hoje (20) para os Estabelecimentos Prisionais no Estado. “Acredita-se que o resultado das investigações no caso da morte do cacique Nízio Gomes tenha sido um marco no que pertine à forma de resolução dos conflitos pela posse de terras entre indígenas e fazendeiros, pois anteriormente nunca tantas pessoas tinham sido indiciadas e presas no estado de Mato Grosso do Sul por terem se utilizado da violência para tentar expulsar indígenas da área de fazendas invadidas, servindo como paradigma de que a melhor forma é sempre buscar os meios legais existentes para qualquer resolução de conflitos”, sustenta a nota da Federal.