Igual a ele, nunca mais. Essa foi a resposta mais ouvida pelo Douranews aos questionamentos feitos junto a populares que participaram do adeus ao ex-prefeito Ari Artuzi, que, assim como chegou, para trabalhar como carregador de madeira para o tio Dioclécio, retornou ao Rio Grande pela mobilização do tio Júlio. A diferença familiar é que o Dioclécio “Sucupira” [adicional que identificava a serraria que o tornou político], este era tido como o legítimo amigo da comunidade; já o Julio sempre disputou, interna e silenciosamente, o espólio eleitoral com o sobrinho que viria a ter a ascensão meteórica encerrada nesta sexta-feira (23) por conta de uma doença maligna.
“Humilde, um coração grande, pessoa caridosa, com ele não tinha luxo”. Esse era o Ari Artuzi para a ex-auxiliar dele na carreira comunitária e política, Lenir Blanz. Assim que soube da morte do ex-prefeito, a mulher postou-se na porta do hospital, depois na funerária, em seguida foi para o cemitério e só retornou pra casa quando a Van fretada pela família desapareceu no horizonte douradense, de volta ao Rio Grande. “Trabalhei 12 anos com ele”, festejou.
“A simplicidade dele fazia diferença”, resumiu o ex-vereador e amigo pessoal de Artuzi, o líder comunitário Jorge Dauzacker. Os dois cumpriram parte do mandato juntos na Câmara [Ari tinha pressa e ‘pulou’ para deputado dois anos depois de iniciar na política] e depois “Jorginho”, como era citado pelo ex-prefeito, foi assessorá-lo em projetos maiores. Foi tão fiel que não hesitou quando o líder orientou que ‘arrancasse aquela coisa feia do centro da cidade’, no caso a estátua do Ervateiro, construída e inaugurada com pompas pelo ex-prefeito Laerte Tetila.

População se despede do gaúcho, em frente à casa onde fez tantos bailões
No Jardim Canaã I, por onde o cortejo passou antes de seguir para o Rio Grande, boa parte dos moradores saíram às ruas e uma pequena concentração chegou a se formar em frente da casa onde Ari morou, promoveu os ‘bailões’ com a comunidade e depois foi flagrado contando dinheiro público na cadeira de fios. “A gente vai lembrar sempre dele, passando por aqui com aquele Ríder velho, os dedos pra fora, falando alto”, comentou uma jovem, na esquina da rua, enquanto passava a comitiva, ao som dos motoqueiros, alguns dentre os mesmos que o carregaram após ganhar a eleição de prefeito, em 2008. “Igual a ele nunca mais”, emendou outra moradora.
Perdeu para os ‘rico’
A dúvida que ficou para os ‘pobre’, como ele costumava se referir aos amigos que o carregaram nos ombros após chegar a prefeito, é quem poderá vir a substituí-lo para o combate aos ‘rico’. Ari Artuzi dizia que era político do povo mais humilde, apesar de terminar a carreira com o título de chefe da quadrilha responsável pelo desvio de cerca de R$ 35 milhões dos cofres públicos do Município, conforme denúncia do MPE (Ministério Público Estadual).
“Tem que pegar o dinheiro dos rico e fazer as coisa para os pobre”, pregava em campanha. Depois, flagrado em contradição na gravação do ex-amigo Eleandro Passaia, dizia que ‘tinha que fazer asfalto pras pessoas morar bem, mas também tinha que ganhar por isso’, justificando as imagens dos pacotes de dinheiro contabilizados pela ex-Maria, que assumiu as vezes de viúva oficial na despedida de Artuzi.
A doença que o atacou pelos intestinos dois meses após deixar a cadeia, para onde foi levado após a operação “Uragano” (furacão, em italiano) não desanimou Ari de imediato, mas ele foi perdendo força ao longo do tempo. “Ele perdeu para os incompetentes, desonestos que só usaram da sua inocência”, comentou Lenir Blanz, mas agora, segundo ela, quando a Justiça manda devolver os bens dos envolvidos na trama “pelo menos ele vai tranquilo”, acredita a ex-auxiliar.
O preconceito, alimentado por Artuzi, contra os ‘rico’, talvez o tenha levado ao final lastimável da carreira meteórica. “Eu sempre dizia pra ele, na Assembleia, que seria deputado pela vida toda, até morrer, mas a vontade de ser prefeito a qualquer custo o seduziu”, lembrou o ex-companheiro de Parlamento, o ex-deputado Valdenir Machado, um dos que melhor se identificam com o eleitorado deixado órfão pelo político gaúcho, e que permaneceu um bom tempo entre os eleitores do ex-prefeito durante o velório.