Romero Jucá (PMDB-RR) — Agência Brasil
E aí senador, o senhor conseguiu estancar a sangria?”. Com frases nesse tom, a assistente social Rúbia Sagaz, 33 anos, abordou ontem o senador Romero Jucá num voo entre Brasília e São Paulo.
Jamais serão esquecidas as palavras “estancar a sangria”, usadas por Jucá diante do gravador escondido do delator e ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Para quem não lembra, eis a transcrição do diálogo (aqui, o áudio):
Jucá - Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
[...]
Machado - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
Jucá - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
Machado - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
Jucá - Com o Supremo, com tudo.
Machado - Com tudo, aí parava tudo.
Jucá - É. Delimitava onde está, pronto.
O ministro Edson Fachin arquivou o inquérito, derivado da delação de Machado, em que Jucá, José Sarney e Renan Calheiros eram investigados por tentar obstruir a Justiça. Não havia outras provas além do diálogo. Mas as palavras de Jucá o transformaram em símbolo.
Ele se tornou a maior expressão da impunidade no Brasil. Entrou para aquela classe de políticos – encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que simplesmente não podem entrar num avião de carreira, sob risco de ser xingados e enxovalhados.
Em compensação, até agora, nem Jucá nem nenhum dos acusados da Lava Jato que desfrutam a prerrogativa de ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) foi condenado por nada.
Além de ter sido citado na delação premiada de Machado, o empreiteiro Ricardo Pessôa afirmou ter repassado a Jucá R$ 1,5 milhão em propina na forma de doação eleitoral. O ex-executivo Cláudio Mello Filho afirmou em sua delação que Jucá comandava uma “intensa agenda legislativa” em favor da Odebrecht. O delator da Operação Zelotes João Gruginski contou que, num pagamento relativo a medidas provisórias do interesse de montadoras, Jucá recebera R$ 15 milhões em propinas.
No STF, os processos andam a passo de cágado. O tribunal assumiu este ano uma espécie de protagonismo nos recuos da Lava Jato, como constatei em meu post de anteontem. Apenas nesta semana, a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, atendeu aos pedidos insistentes do relator Fachin por ajuda para acelerar os processos e pôs dez juízes auxiliares e 36 funcionários à disposição da Corte.
Os procuradores da Lava Jato de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro também aproveitaram a semana para divulgar um esforço concentrado nas investigações, de modo a tentar evitar – ou pelo menos atrapalhar – a candidatura de acusados de corrupção nas eleições do ano que vem (Jucá será, ao que tudo indica, candidato à reeleição em Roraima).
É pequena a chance de os movimentos no STF e do Ministério Público surtirem o resultado desejado. O andamento da Justiça precisa ser necessariamente lento, para dar a todos o legítimo direito à defesa e ao contraditório. Não pode se pautar pelo andamento do calendário eleitoral. Mesmo assim, os casos mais simbólicos precisam ser resolvidos.
O maior receio de Jucá era que seus processos saíssem do STF e caíssem nas mãos do juiz Sérgio Moro, comparado por ele, na conversa com Machado, à Torre de Londres, onde reis ingleses executavam seus rivais. Jucá também já subiu à tribuna do Senado para atacar a Lava Jato, em comparações históricas descabidas com a Inquisição, o nazismo e a Revolução Francesa.
Quando o ministro Luiz Roberto Barroso propôs restringir o foro privilegiado apenas a crimes ocorridos no exercício do mandato, Jucá sugeriu extingui-lo também para ministros do Supremo e integrantes do Ministério Público. Na ocasião, saiu-se com a seguinte frase: “Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada".
Jucá tem certa razão. É preciso ter critério. Uma boa sugestão seria o STF dar prioridade aos casos mais representativos e simbólicos. Que tal começar pelos que envolvem Romero Jucá?