Que as avós são muito mais mestres na arte de cozinhar do que muito chef renomado, ninguém duvida. Mas um novo livro sugere que estas simpáticas senhorinhas também têm muito a nos ensinar quando o assunto é nutrição. Por trás daqueles grandiosos almoços de domingo e para além dos gostos e preferências, existe uma sabedoria comum à maioria delas: antigamente, o que era ‘hype’ era apostar nos alimentos naturais. Nada de molho de tomate pronto, lasanha congelada ou suco de caixinha - obviamente, a qualidade nutricional de tudo que é natural é infinitamente superior.
A constatação vem do livro Prato Sujo - Como a Indústria Manipula os Alimentos para Viciar Você, da Superinteressante (Editora Abril), da jornalista Marcia Kedouk. “Nunca tivemos tanta informação acessível sobre alimentação, e nunca comemos tão mal. A ideia era investigar qual era o problema dessa equação que não bate. Antes, com menos pesquisas e menos acesso, as pessoas comiam melhor”, observa. Para escrever o livro, Marcia se apoiou em estudos da área e em entrevistas com mais de 100 fontes brasileiras, da Europa e Estados Unidos, ao longo de um ano. Ela defende que, diferente das nossas avós, hoje em dia não comemos mais “comida” e, sim, “produtos alimentícios”. “Não sabemos mais qual é o gosto da comida de verdade", pontua.
A autora explica que o livro não se propõe a ser um guia de dieta ou emagrecimento. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre os alimentos industrializados, para que as pessoas passem a fazer escolhas mais inteligentes. Com uma rotina cada vez mais agitada, poucas pessoas têm paciência, tempo, disciplina e motivação para descascar, cortar e preparar pratos e sucos naturais. O que está à mão é o que acaba indo para o estômago: suco de caixinha, bolachas, barrinhas – tudo vira opção quando bate aquela fome no meio do dia. Neste cenário, a consciência alimentar vira sinônimo de qualidade de vida.
Dados
Quando o assunto é saúde, os dados levantados são realmente alarmantes. De acordo com a publicação, mais de 90% dos brasileiros não atingem as recomendações mínimas de ingestão de verduras, legumes e frutas. Além disso, o consumo de bolacha e gordura vegetal subiu 400% nos últimos anos.
A obesidade infantil, por sua vez, cresceu 550% no País desde os anos 1970; enquanto 56% dos bebês com menos de 12 meses tomam refrigerante e 8% das crianças já são diabéticas ou hipertensas.
Indústria em ação
Marcia explica que a indústria alimentícia vem trabalhando para monitorar o cérebro humano e entender, cada vez com mais profundidade, o que mais agrada ao paladar e às células nervosas. “Existem cientistas dentro de laboratórios estudando o sistema digestivo humano. Eles monitoram a absorção do alimento na língua, quanto tempo leva para atravessar o esôfago, o intestino, como chegam às células nervosas. Temos um ‘segundo cérebro’ no sistema digestivo, com células com receptores nervosos que mandam para o cérebro várias informações”, explica.
Segundo a autora, os estudos existentes hoje em dia são bastante sofisticados e investigam os produtos que liberam a maior quantidade de dopamina – definida por ela como a “substância chave do prazer na alimentação". Com isso, fica fácil entender porque o corpo aprova, com facilidade, tudo o que é industrializado. Ela observa ainda que isso é reforçado pelo fato de que, na era moderna, a alimentação deixou de ser associada à sobrevivência e agora está ligada mais ao prazer. “Hoje nem temos mais tempo para sentir fome. Se estamos paradas no trânsito, compramos uma pipoquinha para passar o tempo”.
Sal no doce e açúcar no salgado
Já se sabe que o sal e o açúcar são alguns dos principais vilões da alimentação. O grande problema neste sentido, segundo Marcia, é como eles estão “escondidos” dentro dos produtos industrializados e acabam sendo ingeridos em grande quantidade. Ela explica que ambos são conservantes naturais. Além disso, enquanto o sal realça o sabor dos alimentos, o açúcar traz energia e, quando entra em contato com a língua, manda um comando para o cérebro que libera a dopamina.
A indústria também usa estes dois componentes para disfarçar o sabor dos outros produtos químicos que, por sua vez, têm gosto ruim e são utilizados para conservar o sabor dos alimentos, fazê-los durar mais e chegar o mais próximo do sabor real. “No refrigerante, se você tirar um pouco de sódio, não consegue beber. Ele fica com gosto metálico”. O exagero de consumo de produtos industrializados também acaba habituando o paladar e isso faz com que muitas pessoas se fechem para outros tipos de alimentos. “Os produtos industrializados padronizam o paladar de todo mundo. Então passamos a achar que ele é doce ou salgado, não temos mais paladar para o azedo, para o amargo”, analisa.
Cometer excessos desse jeito acaba sendo só mais uma consequência deste processo. Como o sal e o açúcar deixam os alimentos mais saborosos, levam as pessoas a comerem mais. “Se você come brócolis cru, você vai comer pouco. Mas se encher de sal, vai acabar comendo um monte”.