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Cerveja já foi indicada para amamentar e trabalhar; entenda

28 de junho 2014 - 12h45 Por Redação Douranews
Cerveja já foi indicada para amamentar e trabalhar; entenda

Se beber, não dirija”: o aviso faz parte das propagandas atuais de cervejas e outras bebidas alcoólicas. Geralmente, a “gelada” aparece em clima de festa, bar e alegria entre pessoas adultas, seja na TV, veículos impressos ou internet. Qualquer apelo suspeito pode ser punido com multa e retirada da campanha do ar. Mas as regras nem sempre foram assim e houve um tempo em que a cerveja era indicada contra anemia para crianças, mulheres que estavam amamentando e até como adequada para o ambiente de trabalho. “Eram anúncios totalmente descabidos, alguns chegavam a ser chocantes e ofensivos”, comentou o nutrólogo do Hospital Villa Lobos, André Veinert.

Um comercial da Rainier Beer veiculado há pouco mais de 100 anos, por exemplo, mostrava um adulto e uma criança brindando com um copo de cerveja em mãos e uma legenda que dava à bebida o posto de melhor tônico para as pessoas, imbatível a qualquer remédio. Anos mais tarde, a Malzbier, da Brahma, foi anunciada com uma propaganda que dizia: “a cerveja doce para senhoras e crianças, o tônico contra anemia e palidez”. Mas, como o consumo de álcool pode ser benéfico a crianças? Para a endocrinologista do Hospital Santa Cruz de São Paulo, Lilian Kanda Morimitsu, não havia clareza da química nos processos de fabricação dos alimentos e bebidas e, “provavelmente, se confundia as propriedades benéficas da levedura com a própria cerveja”.

Lilian afirmou que as leveduras de cerveja têm elevado teor de nutrientes e nível proteico (50%), são ricas em vitaminas do complexo B, como B1, B2 e ácido fólico; possuem todos os aminoácidos essenciais, como leucina, lisina e alanina; e muitos minerais, entre eles potássio, cálcio, fósforo, magnésio e zinco. O benefício a crianças e adolescentes seria em relação ao levedo de cerveja e não à bebida em si, explicou a endocrinologista. “A levedura pode ser produzida propositalmente para ser utilizada como suplemento alimentar, mas também ser extraída após o processo de fermentação da cerveja”, disse a profissional.

Acreditava-se no passado, de acordo com Veinert, que a cerveja combatia a anemia por ser rica em ácido fólico, “que faz parte da formação dos glóbulos vermelhos”. As cervejas pretas têm maior concentração desta vitamina, disse. A nutricionista Márcia Loureiro citou uma pesquisa feita pela Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp que descobriu que uma lata de cerveja tem cerca de 20% da quantidade de ácido fólico recomendado por dia para um adulto. O tipo malzbier apresentou mais que o dobro da substância em relação ao pilsen e sem álcool, afirmou Márcia.  

Cerveja x amamentação
As recomendações “medicinais” da cerveja não paravam por aí. Uma das propagandas da Guinness, veiculada há menos de 100 anos, colocou um médico como protagonista recomendando o consumo da bebida. A Antarctica lançou anúncio em que um bebê segurava uma garrafa de cerveja e a oferecia para a mãe. Outro comercial, de uma marca desconhecida, mostrava uma mãe amamentando e como a cerveja a ajudava nessa etapa da vida. “A crença era de que a cerveja estimulava a produção de leite, pelo valor nutritivo e porque também relaxava a mãe, aumentando a produção do leite”, disse Veinert.

A ideia é um mito, segundo Márcia, o que aumenta a produção de leite é a ingestão de líquidos e a sucção regular da criança. Além disso, a nutricionista afirmou que o leite pode ser contaminado, pode afetar a fome, sono e desenvolvimento motor do bebê. “Os níveis de álcool no sangue e no leite ficam alterados mais de uma hora e meia após o último drinque. Nas quatro horas seguintes que uma mãe toma um copo de vinho ou lata de cerveja, o bebê ingere 23% menos leite materno”, alertou Márcia.