Um ex-banqueiro condenado, preso por duas vezes, acusado de aplicar o dinheiro obtido por lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e desvio de recursos na compra de obras de arte. Edemar Cid Ferreira foi despejado da mansão onde morava no Morumbi, na capital paulista, no último dia 20 de janeiro, mas o destino dos valores do falido Banco Santos e das obras que colecionava ainda é incerto. O valor da dívida aos credores ultrapassa os R$ 2,7 bilhões.
No último rateio feito para o pagamento dos credores, as dívidas do Banco Santos somavam R$ 2.791.202.303,50, segundo informações da 2ª Vara de Recuperações e Falências. De acordo com o Tribunal de Justiça de São Paulo, são cerca de 2.100 credores, entre trabalhistas e quirografários (desde clientes até empresas que não têm um título para prioridade no recebimento). O valor do débito corresponde ao apurado para o 3º rateio do pagamento das dívidas aos credores.
A massa falida do Banco Santos, administrada por Vânio Aguiar, é a responsável pelos pagamentos, que tiveram início apenas em junho do ano passado, quase seis anos depois da falência. Em dezembro de 2010, foi iniciado o segundo rateio. Foi determinado o pagamento de 20% da dívida total aos quirografários. O total soma cerca de R$ 2 bilhões. No primeiro rateio, foram pagos R$ 250 milhões, o equivalente a 10% do valor da dívida original.
Em 30 de setembro de 2010, a massa falida possuía um caixa total de R$ 631,4 milhões, o valor mais atual apurado no processo. Os valores arrecadados são provenientes de acordos feitos com devedores do banco, cobrança que tem sido feita desde que decretada a falência.
Os bens do banqueiro e as obras de arte que ainda estão na mansão devem ser leiloados para ajudar a pagar as dívidas. Ainda não é possível, porém, precisar os bens catalogados para o pagamento, segundo o TJ, pois há um agravo de instrumento para ser julgado sobre a questão. O passivo atualizado da falência seria de quase R$ 3,4 bilhões.
Falência
O Banco Santos, em 2004, enfrentava dificuldades financeiras quando sofreu intervenção do Banco Central. Era o 21º maior banco do país, com cerca de R$ 6 bilhões em ativos, R$ 2 bilhões em depósitos e 303 funcionários. Os bens de Edemar e de outros diretores ficaram indisponíveis. Segundo relatórios do BC, o rombo chegaria a R$ 2,6 bilhões.
Em julho de 2005, o juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, recebeu a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal contra o banqueiro e outros 18 ex-diretores da instituição por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro por organização criminosa e gestão fraudulenta de instituição financeira, com o desvio de R$ 2,9 bilhões. Ele determinou ainda a continuidade da apreensão de obras de arte de Edemar.
A falência do Banco Santos foi decretada em setembro de 2005 pelo juiz Caio Marcelo, da 2ª Vara de Recuperações e Falências de São Paulo. Desde então, Vânio Aguiar, que atuou como interventor pelo BC, é o administrador judicial da massa falida. Mas o processo de liquidação ainda deve levar anos. O comitê de credores criado para acompanhar os pagamentos e o administrador divergem sobre os valores apurados.
Em dezembro de 2006, Edemar foi condenado a 21 anos de prisão, e chegou a ser preso por duas vezes suspeito de ocultação das obras de arte. Hoje, responde em liberdade protegido por habeas corpus.
Obras de arte
A coleção de pinturas e esculturas do ex-banqueiro também ainda não tem destino definido. Em janeiro de 2006, a desembargadora federal Vesna Kolmar, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, anulou a decisão do juiz de Sanctis, que determinava a conversão da mansão em museu e que outras obras fossem distribuídas a museus de SP.
Para de Sanctis, o imóvel deveria ser usado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo como museu, com “a alocação de recursos materiais e humanos para que o espaço tenha acesso ao público, permitindo a visitação e a realização de cursos, com a cobrança de ingresso para cobrir as despesas de manutenção”. Além disso, deveria ser feito um “catálogo do imóvel e das obras que o guarnecem visando a divulgação do acervo".
Algumas delas foram repatriadas pelo governo brasileiro em setembro do ano passado. Quadros dos artistas Roy Lichtenstein e Torres Garcia, avaliados em US$ 4 milhões, foram localizados nos Estados Unidos depois que a Interpol foi informada sobre o sumiço por autoridades brasileiras.
Já a Promotoria de Falências alegou que as obras deveriam ser leiloadas para reparar o prejuízo dos que perderam recursos no Banco Santos. Além disso, os advogados do ex-banqueiro alegaram que a decisão sobre o museu extrapolou a competência do Poder Judiciário, interferindo no Executivo. Enquanto o TRF não se decidir sobre o mérito da questão, as obras, avaliadas entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões, estão sob poder do administrador judicial e podem ir a leilão.