O mais recente desses exemplos, segundo a dona de casa Maria Siqueira, ocorreu em relação ao caso envolvendo a manicure Jamille Letícia de Souza, 29 anos, que morreu após ser esfaqueada pelo ex-marido no Jardim Canaã I, em Dourados, na manhã de ontem (31 de outubro). O atendimento só foi realizado quase uma hora depois do chamado, porém, por uma equipe de resgate do Corpo de Bombeiros. Segundo ela, outros casos aconteceram, como o de uma outra mulher que passou mal e teve que esperar por mais de duas horas para que o atendimento fosse realizado.

Maria Siqueira, Aguinaldo e Ana Paula criticaram demora no atendimento pelo Samu
Outra a reclamar do atendimento foi a cuidadora de idosos, Ana Paula Martins Lopes. Ela disse que ligou várias vezes para o Samu, assim como diversas outras pessoas. “Me perguntaram o que havia acontecido, qual o estado da pessoa, qual a profundidade do corte, entre outras coisas, mas disseram que não poderiam fazer o atendimento porque não havia viatura disponível”, conta Ana Paula, revoltada, questionando: “Será que, por volta das 6 horas, havia tanto atendimento assim que não era possível vir atender uma pessoa que, conforme eu e outras pessoas explicaram, aparentava estar em estado grave?", disparou.
Para Aguinaldo Aguiar dos Santos, que trabalha como porteiro, “se na hora que dependemos dos organismos de atendimento à saúde acontece isso, como vamos acreditar que estão trabalhando da forma correta. Será que a Jamille não morreu por ter perdido muito sangue, já que demoraram tanto?”.
Ao mesmo tempo ele se diz entristecido com o ocorrido. “Hoje o Canaã 1 é um dos melhores bairros para se morar, mas fatos como esses mantêm a fama de um local violento e além disso, temos que nessas horas conviver com políticos e pré-candidatos que ficam se aproveitando do momento com objetivos eleitoreiros, o que é uma vergonha”.

O atendimento de Jamille Letícia foi realizado por uma viatura de resgate do Corpo de Bombeiros que chegou a levar a vítima ainda com vida ao Hospital da Vida, depois de ser agredida pelo ex-marido, Walder Arantes da Rosa, de 42 anos, fato presenciado por um filho pequeno do casal.
Para a radialista Keliana Fernandes, amiga da vítima e que acompanhou todos os desdobramentos desse episódio, “não podemos continuar mais convivendo com esses tipos de agressão. A Lei Maria da Penha somente não resolve, e o pior, como podemos admitir que, se condenado, o criminoso em seis anos poderá estar de volta às ruas, como se nada tivesse acontecido”, disse Keliana, lembrando que “Jamille era uma mulher guerreira, que trabalhava para criar seus três filhos, que agora ficam sem ter a mãe. O que será destas crianças agora?”, lamentou emocionada.

O cortejo de Jamille Letícia saiu do Centro Comunitário do Canaã 1 em direção ao Cemitério Santo Antonio, passando antes pelas ruas centrais de Dourados, como um protesto pela falta de segurança das mulheres que, conforme disse Keliana Fernandes, “precisam ser firmes e quando prestarem queixa à polícia, não retirarem, como acontece na grande maioria das vezes, para que se possa evitar novas tragédias”, finalizou.