“A demarcação de terras indígenas é necessária, mas está virando uma bandalheira”. Essa frase dita pelo antropólogo Edward Mantoanelli Luz pode explicar em parte o clima de conflito em Mato Grosso do Sul. Ex-integrante de GTs (Grupos de Trabalho) da Funai (Fundação Nacional do Índio), ele afirma que alguns colegas de profissão possuem um “compromisso velado” com as comunidades tradicionais e denuncia o uso de “artifícios fraudulentos” na confecção de laudos.
Em entrevista ao Diário MS, Luz criticou duramente o atual modelo demarcatório. Responsável por oito demarcações (todas no Amazonas) durante o período em que trabalhou para a Funai, de 2003 a 2008, ele disse ter testemunhado vários casos de trabalhos tendenciosos, produzidos sem o devido embasamento.
“Há alguns antropólogos que cedem às pressões trabalhistas e se valem de artifícios fraudulentos, como omitir informações, diminuir ou ignorar a importância de algum dado que ele acha que pode ser prejudicial a demarcação ou sobrevalorizar o que ele acha crucial para a demarcação”, afirmou. “Também podem usar as falas de um único informante com dados históricos não confiáveis”.
Segundo Luz, esse tipo de atitude ocorre porque o antropólogo “está emocionalmente comprometido com a causa indígena”. Ele lembra que esses profissionais são contratados para emitir relatório que diga se a terra é ou não indígena. No entanto, considera “muita ingenuidade” esperar por laudos que sejam contrários ao índio. “Muitos entendem que a contratação deles é para dizer que sim”, dispara.
Diante deste cenário, considera que o produtor rural brasileiro enfrenta um desafio gigantesco diante desses estudos. “O antropólogo no Brasil possui um certo compromisso velado com os povos indígenas”, opina. “Há preconceito predominante que o antropólogo só deve trabalhar para o indígena”.
Edward Luz informa ainda que há uma crescente na demanda por novas Terras Indígenas. Segundo o antropólogo, quando deixou a Funai, em 2008, havia o pedido de 250 novos estudos. No ano passado, assinala, esse número teria saltado para 450.
Procurada para comentar as críticas e confirmar esses dados a Funai preferiu não se manifestar. Por e-mail, o órgão federal se limitou a dizer que “não tem interesse em se posicionar sobre o assunto no momento”.
O Diário MS também entrou em contato com a ABA (Associação Brasileira de Antropologia), mas não obteve respostas para os questionamentos até o fechamento desta edição.
De acordo com o ISA (Instituto Sócio Ambiental), existem 678 Terras Indígenas no Brasil, que ocupam extensão total de 112 milhões de hectares. Do total de TIs, 119 estão em identificação, cinco têm restrição de uso não indígena, 31 foram identificadas, 63 declaradas, 23 reservadas, 18 homologadas e 419 “reservadas ou homologadas com registro no CRI e/ou SPU”. (André Bento / Diário MS)