Buscar quarta-feira, 2 de setembro de 2026
(67) 99913-8196
Dourados
14°C
Dourados

UFGD forma primeira turma de assentados rurais em Dourados

14 de dezembro 2012 - 17h24 Por Redação Douranews
UFGD forma primeira turma de assentados rurais em Dourados

O reitor da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), professor Damião Duque de Farias, agradeceu ontem (13) aos novos cientistas sociais formados pela instituição, pela obstinação em comparecendo ao curso, mesmo com todas as dificuldades. “Vocês são nossos parceiros na construção de uma identidade universitária”, discursou Damião, que presidiu a solenidade de colação de grau dos formandos da turma especial do curso de Licenciatura em Ciências Sociais do Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária).

Agradeceu, também, ao envolvimento de todas as entidades e movimentos, pois sem eles não seria possível a realização da graduação. Damião citou que os três principais valores da UFGD são, em primeiro lugar, excelência e qualidade de ensino, proporcionando a contribuição para o desenvolvimento regional e, por fim, o compromisso social, completando uma tríade de objetivos que vêm sendo alcançados pela instituição.

Ressaltou que compromisso social não significa apenas criar campanhas, mas, sim, “abranger a todos com políticas públicas para que aqueles que não têm acesso ao Ensino Superior possam ter formação científica na universidade”.

pronera reitor

Damião: "Vocês ajudam UFGD a construir uma identidade universitária"

O reitor finalizou lembrando aos formandos que o mérito daquela noite era todo deles, pois de 450 candidatos inscritos no processo seletivo, eles se superaram e foram aprovados.

Ansiedade

Os rostos ansiosos não escondiam que aquela seria uma das noites mais importantes de suas vidas. Para alguns, sem dúvida, a maior conquista que sequer imaginariam alcançar. E, assim, os 56 formandos do curso entraram, um a um, no Auditório Central da Unidade II, para de lá saírem com um diploma nas mãos, certificado não apenas de formação, mas de superação e força de vontade.

Às 19 horas a cerimônia foi iniciada com a apresentação da Orquestra Experimental da Escola Rural Monte Azul, localizada no Assentamento Taquaral, em Corumbá. Meninos e meninas do Ensino Fundamental, regidos pelo maestro e professor Sérgio Pereira, extraíram de violões, flautas e violinos, clássicos da música erudita, como “Jesus, alegria dos homens”, de Johann Sebastian Bach, até canções populares como “Chalana” (Mário Zan e Arlindo Pinto) e “A tristeza do Jeca” (Angelino de Oliveira).

Em seguida, o grupo de teatro dos assentamentos aos quais pertenciam os formandos, clamou pela democratização do ensino universitário ao bradar que “a universidade pertence ao povo e não é patrimônio de ninguém”. A apresentação, que emocionou a muitos, deu o tom ao que viria a seguir com a entrada dos acadêmicos, que estampavam em seus semblantes a dura caminhada percorrida até ali. Dura, porém vitoriosa.

Repleto de familiares, amigos e autoridades, o auditório vibrou com o discurso dos oradores Valdirene de Oliveira e Cristiano Almeida da Conceição. Ele lembrou a todos que “os camponeses romperam a cerca do conhecimento”, alegando que no início do curso houve dificuldade em organizar a turma, pois cada um trazia o que foi apreendido de seu movimento social.

No entanto, ressaltou Cristiano, logo o individualismo deu lugar ao companheirismo. Palavra esta, que segundo Valdirene, marcou vários momentos vividos nos quatro anos. “Havia amizade entre todos, alunos, professores, funcionários, motoristas. E aos poucos as linguagens foram mudando e os novos conceitos se incorporando ao nosso cotidiano”, completou.

Ela lembrou quantos acadêmicos pensaram em desistir, em função da distância a que ficariam da família quando das aulas presenciais. Muitas mães que tiveram de deixar os filhos em casa, casais que passaram tempo longe. No final, disse ela, tudo deu certo e hoje “cabe a nós decidir de que lado estamos e que papel teremos na sociedade daqui para frente”.

Programa

Enquanto a maioria dos cursos da UFGD acontece ao longo de oito meses no ano, as atividades de Ciências Sociais/Pronera eram divididas em duas etapas de 30 dias. Durante os módulos presenciais, os estudantes assistiam aulas em tempo integral. Quando voltavam para o assentamento, os estudos continuavam, pois tinham que realizar projetos com a comunidade e escrever relatórios de avaliação.

Essa é a primeira graduação em Ciências Sociais para assentados rurais do Brasil. Em Mato Grosso do Sul, a iniciativa é pioneira, pois quando de sua implementação ainda não existia curso do Pronera no Estado. Os moradores de assentamentos que concluíram a faculdade poderão lecionar Sociologia no ensino fundamental e médio, atuando como educadores sociais.