Encostadas ao centro urbano de Dourados, a segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, as aldeias Jaguapiru e Bororó têm dramas antigos. Aproximadamente 12 mil índios, segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), dividem 3,6 mil hectares para viver em uma situação de confinamento. A falta de espaço se mistura com problemas de violência, gerado pelo consumo de álcool e drogas.
Em Caarapó, a 46 quilômetros dali, a aldeia Teyí Kuê possui praticamente a mesma área, mas comporta população de cerca de cinco mil índios.
“Os principais problemas da violência é (sic) bebida alcoólica e droga. Tem muita briga de casais por causa de bebida alcoólica. Isso só com a polícia [solução], senão é duro porque são muitas pessoas”, afirma Aniceto Velasques, 42 anos, uma das lideranças da reserva Bororó.
No dia em que concedeu entrevista ao G1, Velasques disse que a aldeia havia registrado três agressões contra mulheres mulheres, vítimas dos maridos, e roubo a uma igreja da comunidade. Foram levados equipamentos avaliados em cerca de R$ 1 mil. Ele reclamava que os casos não haviam sido solucionados pela polícia.
“A proximidade das reservas com a cidade faz com que problemas que temos na cidade migrem rapidamente para as duas aldeias, por exemplo, o consumo de drogas e o alcoolismo”, analisa Neimar Machado, professor da Faculdade Intercultural Indígena da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). “Em Caarapó, por exemplo, a aldeia é distante da cidade. A preocupação com o uso de drogas é mais recente”, compara.
Analisadas em uma visão aérea as aldeias parecem bairros de Dourados, explica o professor. “Porém, por ser uma reserva indígena e por conta do preconceito, não tem todo atendimento que um bairro tem. A circulação de ônibus, saneamento e segurança ficam prejudicados”.
Dados divulgados pelo Conselho Missionário Indigenista (Cimi) no Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil retratam em números a realidade indígena nas reservas de Dourados e as define como "campos de concentração". Dos 37 assassinatos registrados no estado em 2012, 18 ocorreram na cidade (48,6%). Em cinco deles o consumo de bebida alcoólica foi agravante.
Também foram registradas onze tentativas de homicídios em MS em 2012, seis apenas em Dourados. Em relação a casos de lesão corporal dolosa, dos quatro registros no estado, três foram no município. Dois referem-se a indígenas que agrediram a esposa.
O relatório do conselho aponta que o consumo de álcool e outras drogas segue como sério problema entre os guarani-kaiowá no município. No documento divulgado pelo órgão, liderança da aldeia Jaguapiru afirma que crianças têm acesso a bebidas desde os 11 anos.
“Têm pais de família que com quatro, cinco rapazes [filhos] e não tem como trabalhar”, diz Aniceto Velasques, fazendo relação da violência com a falta de incentivo e áreas para a produção. “Se medir vai dar sete hectares de área de produção nas reservas em uma área total de 3,6 mil hectares”.
Segundo ele, a estrutura precária das estradas na terra indígena e a falta de iluminação pública têm relação com a violência. “Muitos saem de madrugada, no escuro, para trabalhar. A estrada precisa de cascalhamento. Em dia de chuva ônibus chega a ficar atolado por nove dias”.
Encarar as estradas ruins e sem luz faz parte da rotina de Agemiro Amarilha, 36 anos, morador da reserva Bororó. Ele trabalha como ajudante de máquinas em uma usina. Sai de casa todos os dias às 3h (de MS) e caminha pelo menos sete quilômetros até a rodovia, onde utiliza o transporte coletivo. “Quando chove fica tudo liso [estradas]”, diz. Segundo informações do G1.