Daqui a oito dias a operação "Uragano" (furacão, em italiano) que prendeu mais de 50 pessoas envolvidas em um esquema de corrupção na gestão do ex-prefeito Ari Artuzi vai completar três anos. Entretanto, uma decisão do juiz José Domingues Filho pode tornar a operação, desencadeada pela Polícia Federal na Prefeitura de Dourados, como ‘peça de ficção’ apenas. Tudo porque o magistrado entendeu que as provas produzidas pelo ex-assessor direto de Artuzi, Eleandro Passaia, não possuem valor legal.
O despacho do magistrado saiu nesta sexta-feira (23), no final da tarde, menos de cinco horas antes de confirmada a morte do considerado chefe da quadrilha, o ex-prefeito Ari Artuzi, que havia sido novamente internado no dia 13 deste mês para continuidade ao tratamento contra o câncer de intestino que o acompanha desde novembro de 2011, só dois meses depois de ter sido preso no cumprimento de 29 mandados da Polícia Federal.
De acordo com a PF, o prefeito do município, Ari Artuzi chefiava uma quadrilha de fraude a licitações e corrupção ativa no Município, responsável por um rombo superior a R$ 35 milhões. Na ação foram presos secretários municipais e nove vereadores: Aurélio Bonatto (PDT), José Carlos Cimatti (PSB), Edvaldo Moreira (PDT), Cláudio Mracelo Hall, o Marcelão (PR), Marcelo Barros (DEM), Paulo Henrique Bambu (DEM), Tio Julio Artuzi (PRB), Zezinho da Farmácia (PSDB), o presidente da Câmara, Sidlei Alves (DEM), além do vice-prefeito Carlinhos Cantor (PR), que assumiria a prefeitura caso Artuzi perdesse o mandato.
A PF chegou às prisões através de gravações polêmicas feitas pelo então secretário de Governo e pupilo do ex-prefeito, Eleandro Passaia, que após ter sido beneficiado por uma delação premiada, capturou cenas onde ele próprio oferecia dinheiro para os vereadores em troca de apoio ao ex-chefe, até então considerado um fenômeno e comparado várias vezes pelo então secretário ao ex-presidente Lula, pela origem humilde e a atenção que dispensava aos pobres.
Artuzi ficou preso por mais de três meses e enquanto esteve na cadeia ele chegou a assinar cheques para pagamento aos funcionários da Prefeitura de Dourados e algum tempo depois foi afastado do cargo pelo Tribunal de Justiça. Nesse período, dois prefeitos exerceram o mandato de forma interina – o juiz Eduardo Machado Rocha, que assumiu na falta dos substitutos naturais do prefeito e Délia Godoy Razuk, que assumiu a presidência da Câmara de Vereadores e por conseqüência, a prefeitura.
No dia 1° de dezembro de 2010 o então prefeito e o vice Carlinhos Cantor renunciaram aos cargos, e no dia seguinte foram soltos após o TJMS revogar as prisões, incluindo a do presidente da Câmara Sidlei Alves que já havia renunciado ao mandato ainda na cadeia..
Após cinco meses à deriva, os moradores de Dourados voltaram às urnas no dia 6 de fevereiro de 2011 para elegerem Murilo Zauith, derrotado por Artuzi na eleição de 2008, que, desta vez, venceu os candidatos Genival Valeretto, do PMN, José Araújo, do PSOL e Geraldo Sales, do PSDC, com pouco mais de 80% dos votos.
Revolta
Durante os meses de indefinição sobre a situação dos vereadores os cidadãos douradenses foram até a Cãmara em diversas sessões para protestar. A porta de vidro da Câmara de Vereadores foi arrebentada por indivíduos que foram proibidos de entrar no recinto que já estava lotado durante uma sessão presidida pelo ex-vereador Aurélio Bonatto, que havia deixado a prisão dias antes. Ele foi alvo de uma sapatada enquanto tentava abrir a sessão, após ter sido solto. No mesmo dia, ovos foram atirados contra o carro do ex-vereador Tio Julio Artuzi, também recém saído da cadeia.
Pressionados pela população, alguns vereadores renunciaram e outros foram cassados pelos vereadores Dirceu Longhi, do PT, Gino Ferreira, do DEM e Délia Razuk, do PMDB, os únicos que 'escaparam' das denúncias de Passaia, e dos suplentes que assumiram os cargos devido às renúncias.