Dois casos que chocaram a população de Dourados nos últimos meses, onde pessoas que deveriam ser responsáveis pela guarda e o cuidado de menores acabaram sendo acusados pelo assassinato de crianças, provocaram um sentimento de revolta na população. Mas será que existe uma explicação científica para esses distúrbios de adultos?
Para a psicóloga Rosemeire Martins, os casos do guardador de carros José Fernandes de Freitas, de 36 anos, e Davidson Correia dos Santos, de 25, que espancaram crianças até à morte e sem motivo aparente, pode ser definido como “normal”. Em conversa com o Douranews, Rosemeire diz que “estamos vivendo um tempo em que tudo é normal. Virou normal ser estressado”.
No caso específico do assassinato das crianças por Freitas e Davidson, as vítimas ainda muito pequenas refletem o lado sombrio do ser humano, que pode manter-se escondido até que ocorra um surto e esse venha a cometer barbáries.
“Nesses casos o indivíduo pode ter não só uma dupla personalidade, pode ser um caso psicótico, uma esquizofrenia, ou uma consequência causada pelo uso de drogas ou ainda por não ter nem uma relação sanguínea com a criança. A pessoa se vê no direito de querer sua privacidade, o seu sossego, e a criança passa a atrapalhar o sujeito. A partir desse ponto pode ocorrer um caso grave de distúrbio psiquiátrico e que em situações extremas, como essas, o indivíduo passa dos limites e não consegue mais suportar a situação e por isso pode ocorrer um surto”, relata a psicóloga.
“Então – de acordo com Rosemeire – ao deixar de observar fatores importantes, como a valorização do relacionamento, acabam ocorrendo algumas esquisitices, alguns comportamentos que normalmente as pessoas não fariam mesmo em situação extrema”.
Mas, o que motiva pessoas consideradas “normais” e com bom comportamento social a praticarem atos brutais e violentos?
São vários os motivos e, nos casos registrados em Dourados, “a gente não pode atribuir essas agressões apenas à questão do estresse”. A psicóloga Rosemeire Martins diz que “vivemos hoje na sociedade do descarte, você não me satisfaz eu te descarto”. E a criação não interfere tanto nesses casos, apesar de que “quando os pais estão presentes no processo educacional o sujeito tem pelo menos uma direção. Mas existem casos que o individuo recebe uma educação adequada e assim mesmo comete crimes bárbaros”, comenta Rosemeire.
Rosemeire ainda alerta que a população vive hoje um momento que tudo é considerado normal, não se incomodam com comportamentos agressivos do dia-a-dia, fatores que podem ser inicio de um surto psicótico e pode passar despercebido.
Recuperação
Segundo a psicóloga, a recuperação dessas pessoas que chegam a cometer crimes dessa natureza é muito difícil, pois o indivíduo precisa ser assistido e analisado, observando se houve arrependimento ou se ele acredita que conseguiu simplesmente livrar-se de um problema ao cometer tal atitude.
“Primeiro é preciso que eles admitam que fizeram uma barbaridade, uma atrocidade. É mais complicado conviver com isso até porque as pessoas não perdoam uma agressão contra uma criança, contra um incapaz. É possível a recuperação... é possível, mas é necessário analisar esse individuo também. Se existem sequelas causadas por drogas, qual o tipo de situação que motivou o crime, as características de personalidade do sujeito... Então, a gente não pode deixar de acreditar em uma recuperação”, finaliza a psicóloga.