A douradense Jusselene Ferreira da Silva, de 37 anos, colou grau em setembro deste ano no curso de Ciências Contábeis da Faculdade Anhanguera, vai participar, terça-feira (3), do programa ‘Encontro com Fátima Bernardes’, da Rede Globo. Jusselene vai contar a história de como, ao 18 anos, perdeu a visão e até nenhum médico conseguiu descobrir os motivos, e como realiza as atividades da casa, com marido, filhos e até uma loja. O tema do programa será “Sentidos”.
O programa vai destacar como ela perdeu a visão, o que fez para tentar reverter o quadro e como reagiu para continuar trabalhando para sobreviver. Também vai falar como conheceu o marido, com quem teve três filhos, como foi o desafio de concluir o ensino superior na área de exatas e tocar o próprio negócio. No dia 13 deste mês é comemorado o Dia do Deficiente Visual, data instituída pelo ex-presidente Jânio Quadros, em julho de 1961.
História
Jusselene lembra que tinha uma visão perfeita, criava sozinha a filha de três meses (em 1995) e de repente, acordou em um dia sem enxergar absolutamente nada, mas só se deu conta de que havia perdido a visão quando acendeu o interruptor da luz e continuava escuro e quando aproximou-se da janela sentiu o calor do sol ao tocar a janela.
A recém-formada recorda que foi uma busca incessante para recuperar a visão tanto em Dourados, Campo Grande, quanto em Goiânia, mas não obteve êxito. Depois de três anos, conheceu o atual esposo e teve mais três filhos. Na época, passou a vender perfumes e roupas para ajudar nas despesas de casa até que surgiu a oportunidade em trabalhar como locutora de uma rádio.
Passados mais alguns anos, ouviu um debate na televisão sobre inclusão social, surgindo à vontade de voltar a estudar, pois faltava concluir o ensino fundamental. Ela conta que foi a uma escola próxima, conversou com a diretora, frequentou aulas e com o resultado do provão conseguiu concluir o ensino fundamental, matriculando-se no EJA (Ensino de Jovens e Adultos).
Mas foi no terceiro ano do ensino médio, quando dois professores da Anhanguera visitaram a escola para falar dos cursos oferecidos e perceberam a força de vontade de estudar e a inteligência da jovem Jusselene e a desafiaram a prestar o vestibular. Ela encarou e prestou o vestibular, conseguindo nota pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para o curso de Ciências Contábeis e uma bolsa de estudos integral do Prouni (Programa Universidade para Todos).
Mesmo com a deficiência visual, hoje com 37 anos, não interfere nas atividades diárias dos estudos assim como não impede uma rotina normal do dia a dia. Ela trabalha em uma lojinha própria de roupas, toma conta da casa, marido e dos filhos. Ainda arruma tempo para fazer cursos de massoterapia, estética e auxiliar administrativo.
Caso raro
O médico Marcos Ávila, que atendeu Jusselene em Goiânia/GO na época, explicou que ela teve um descolamento de retina inalterável causado possivelmente por processo inflamatório. “Lembro-me que não conseguia ver o fundo dos olhos dela e que foi preciso uma ultrassonografia ocular para avaliar”, explica. Segundo ele, o caso é raro em uma pessoa jovem, como o caso de Jusselene, que tinha apenas 18 anos. “O deslocamento de retina é comum em casos de trauma ou miopia alta (10 graus) e a inflamação pode ocorrer por bactéria, vírus, entre outros”.
A diabetes e a hipertensão também podem causar cegueira repentina. “Eu não tinha nenhuma dessas doenças, não sofri nenhum acidente e ainda no mês passado fiz check-up atestando que minha saúde está ótima”, comenta Jusselene.
Outro médico, Álvaro Hilgert, que a consultou em Campo Grande na época, confirmou com que esse caso “é raro e muito grave, e mesmo com o avanço da tecnologia atual, ainda é difícil de diagnosticar”.