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Psicologia da Unigran aborda rupturas do contemporâneo

Sofrimento psíquico ganha destaque em Jornada Acadêmica

27 agosto 2026 - 16h02Por Assessoria

Palestra de abertura da XXIII Jornada Acadêmica discutiu os

impactos da exaustão, da solidão e das transformações

sociais sobre a saúde mental

O sofrimento psíquico em uma sociedade marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela fragilização dos vínculos esteve no centro da palestra de abertura da XXIII Jornada Acadêmica e XIII Mostra Científica de Psicologia da Unigran. Com o tema ‘O Sofrimento Psíquico na Contemporaneidade’, o professor Dr. Dionatans Godoy Quinhones propôs aos acadêmicos uma reflexão sobre as novas configurações da dor humana e sobre o papel da Psicologia diante de demandas que ultrapassam a dimensão individual.

A discussão dialogou diretamente com o tema geral da Jornada, ‘Psicologia em Diálogo: Tecendo Redes Frente às Rupturas do Contemporâneo’, ao questionar como as transformações sociais, tecnológicas e nas relações de trabalho repercutem sobre a subjetividade. Para Quinhones, uma das características mais marcantes do sofrimento atual é a combinação entre exaustão e solidão.

“Vivemos uma epidemia silenciosa, não de vírus, mas de sentido, de vínculo e de falta de descanso”, afirmou o palestrante. Segundo ele, a sociedade contemporânea impõe uma cobrança permanente por produtividade, desempenho e felicidade, reduzindo os espaços destinados à pausa, à presença e à convivência.

O cenário apresentado encontra respaldo em dados internacionais. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que mais de 1 bilhão de pessoas, ou quase uma em cada oito no mundo, viviam com algum transtorno mental em 2025. Ansiedade e depressão estão entre as condições mais frequentes.

Para o palestrante, entretanto, compreender o sofrimento exclusivamente como doença pode limitar a escuta psicológica. “O sofrimento psíquico não é, em primeiro lugar, uma doença — é um acontecimento existencial que pede escuta, presença, mas sobretudo, comunidade”, destacou.

Entre conexão e solidão

As novas tecnologias e as mídias sociais foram apontadas como parte de um paradoxo contemporâneo: embora ampliem as possibilidades de conexão, também podem favorecer comparação, ansiedade e relações mais frágeis. Na avaliação de Quinhones, o excesso de informação mantém as pessoas em estado permanente de alerta, acompanhando, respondendo e comparando suas vidas às representações construídas por outras pessoas.

A cultura da exposição também altera a maneira como as emoções são vivenciadas. “A cultura da exposição transformou a emoção em espetáculo. Hoje a gente não sente apenas, a gente performa o que sente para uma plateia”, afirmou.

Nesse contexto, o palestrante chamou atenção para a tendência de transformar o sofrimento em algo que precisa ser rapidamente superado. Para ele, a Psicologia deve resistir à necessidade de nomear ou classificar imediatamente experiências que ainda não foram compreendidas pelo próprio sujeito.

“Tem dores que ainda não têm nome, e o psicólogo precisa ter coragem de acolhê-las mesmo assim, sem pressa de rotular”, explicou. A proposta, segundo Quinhones, é colocar a escuta e a presença antes da classificação, permitindo que a própria pessoa encontre formas de elaborar aquilo que vivencia.

Formação para além da técnica

A discussão também trouxe uma reflexão sobre as competências necessárias aos futuros profissionais. Entre elas, o palestrante destacou a escuta profunda, a presença, o pensamento crítico, a humildade e a capacidade de trabalhar em rede. A ideia é que o psicólogo não atue de forma isolada, mas dialogue com família, escola, saúde, cultura e comunidade.

Essa perspectiva está alinhada ao propósito da Jornada, segundo o coordenador do curso de Psicologia da Unigran, Carlos Valiente. Para ele, as transformações contemporâneas têm produzido novas demandas para a área, entre elas a precarização do trabalho, a fragilização dos laços sociais, a diversidade humana e o uso excessivo de tecnologias.

“Essas ‘rupturas’ geram novas demandas para a Psicologia, pois se expressam por diferentes formas de sofrimento. Um exemplo é a fragilização dos laços sociais, muito por conta dos avanços tecnológicos e domínio das redes sociais”, afirmou.

Valiente ressalta que, diante desse cenário, o profissional precisa ampliar sua perspectiva e considerar não apenas o indivíduo, mas também os grupos, os espaços sociais e as políticas públicas. “Tecer redes é construir diálogos que ampliem o conhecimento e fortaleçam a práxis profissional, com o intuito de desenvolver novas possibilidades frente às demandas emergentes”, explicou.

A universidade como espaço de diálogo

A programação da Jornada reuniu palestras, minicursos e a XIII Mostra Científica, contemplando temas como relações abusivas, saúde mental do trabalhador, autismo em adultos, avaliação psicológica e diferentes abordagens clínicas. Para o coordenador, a diversidade reflete a própria amplitude da Psicologia e a necessidade de atualização permanente dos profissionais.

A Mostra Científica, por sua vez, reforçou a aproximação entre formação acadêmica e produção de conhecimento. “A pesquisa científica é um pilar fundamental para o desenvolvimento da ciência psicológica”, destacou Valiente, ao defender que as práticas profissionais sejam fundamentadas no conhecimento científico.

A experiência também foi percebida pelos estudantes como uma oportunidade de ampliar a compreensão sobre a profissão. Para Henrique Kenji Ruiz Sato, acadêmico do 6º semestre, a palestra de abertura esteve entre os conteúdos mais relevantes justamente por abordar uma realidade diretamente relacionada à futura atuação profissional.

“Compreender as diferentes formas pelas quais esse sofrimento se apresenta na contemporaneidade e estar preparado para acolhê-lo e escutá-lo será um desafio constante na atuação profissional”, avaliou.

Para o estudante, a Jornada também possibilitou enxergar a Psicologia a partir de diferentes perspectivas e áreas de atuação. “Participar de uma Jornada como esta nos permite conhecer diferentes áreas, experiências e formas de atuação que, muitas vezes, não conseguimos compreender apenas dentro da sala de aula”, afirmou.

Ao encerrar sua reflexão, Dr. Dionatans Quinhones deixou aos futuros psicólogos uma concepção que sintetiza a proposta de sua palestra: a Psicologia não deve assumir como missão simplesmente eliminar a dor, mas acompanhar o sujeito em sua experiência de sofrimento. “A Psicologia não nasceu como ciência da felicidade, do ajustamento ou do desempenho, nasceu do encontro com a dor do outro e da decisão de não desviar o olhar”, afirmou.

A discussão reforçou, assim, a proposta central da Jornada: diante das rupturas do contemporâneo, compreender o sofrimento humano exige mais do que respostas individuais. Exige escuta, conhecimento científico, pensamento crítico e capacidade de construir redes de cuidado, competências que começam a ser desenvolvidas ainda na formação universitária.