Urgente... Vamos salvar nossas crianças e nossos jovens
* Por Julio Saldivar.
Outro dia parei para assistir uma reportagem na televisão que mostrava, na cidade de São Paulo, a condição de vida de um garoto de dezessete anos. Vivendo com a mãe, uma empregada domestica que trabalha fora o dia todo, em uma casa muito simples, abandonou os estudos para trabalhar como catador de papelão e outros materiais recicláveis para poder ajudar nas despesas de casa. Falava o garoto dos seus sonhos, de poder estudar, poder usufruir de coisas que não tinha condição alguma de ter, como vídeo game dos atuais (tem um daqueles bem antigos que é o passatempo da tarde), de ter um computador, roupas e calçados que outros garotos usam, e outras que fazem parte do consumismo juvenil atual. Mostrando a geladeira, muito deteriorada pelo tempo de tão antiga, completamente vazia, ao ser indagado pelo repórter sobre o que ele queria que tivesse lá dentro, na sua resposta deu para perceber todo o estrago de uma infância perdida, ao responder que gostaria que lá tivesse bastante “danoninho” para comer. Sua alimentação a mãe deixava pronta de um dia para o outro, já que passa praticamente o dia todo fora, e no dia da reportagem tinha arroz e feijão para comer. Na rua durante o trajeto diário que percorrida das quatro horas da manha até as treze ou quatorze horas, carregando pesada carroça, tem como companheiro de trabalho muitos alcoólatras e consumidores de drogas. Pelo que se pode perceber na reportagem aquele ainda não era um caso perdido para a sociedade, junto com a mãe ao término da reportagem toda demonstração de respeito, carinho e amor que tem um pelo outro.
Como gosto de mostrar números em meus comentários, adiante mostro alguns. O Brasil tem 50 milhões de jovens, na faixa etária dos 15 aos 29 anos, o que representa 26% do total de 190 milhões de brasileiros. Estudo do Ipea aponta que 31% dos adolescentes podem ser considerados pobres e apenas 13% deles tem acesso ao ensino superior na faixa etária dos 18 aos 24 anos. Dos jovens na faixa etária dos 15 aos 17 anos, um terço, ou seja, algo em torno de 3 milhões de jovens nessa faixa etária, está fora do ensino médio, ainda cursam o ensino fundamental. Apesar da queda do analfabetismo nos últimos tempos no Brasil, algo em torno de 10% dos jovens, na faixa etária dos 15 anos acima, não sabe ler e escrever. Em países como Uruguai, Argentina e Chile essa taxa não passa dos 4%. .
Não vou discorrer sobre cada um, mas o governo brasileiro possui algo em torno de 33 programas destinados aos jovens, distribuídos entre vários ministérios, entre eles os da Educação, dos Esportes e da Saúde. Além desses, alguns Estados e Municípios também possuem programas locais. Ocorre que o sucesso desses programas fica comprometido devido a falta de coordenação e de articulação entre as diversas políticas publicas. Além disso, programas que realmente chamam a atenção do jovem, principalmente os relacionados as artes e aos esportes, são escassos. Falta um órgão específico (uma secretaria ou um ministério) responsável pela formulação e aplicação de um programa global que agregue todos os programas já existentes, e mais outros necessários a serem discutidos com as crianças e jovens de cada região, de cada bairro ou comunidades dos municípios.
Posso até estar sendo repetitivo, pois já abordei este assunto em outros dois artigos que escrevi, mas aqui mesmo em nossa cidade falta opção para aquela criança que fica em casa enquanto os pais trabalham, para os jovens nos horários que não estão em sala de aula e nos finais de semana, falta orientação para as famílias. Enquanto isso o uso e o tráfico de drogas se disseminam, jovens bêbados, armados, roubando, matando uns aos outros como naqueles velhos filmes de faroeste. Até quando vamos continuar assistindo isso?...
A administração municipal deve se empenhar, apresentar projetos, buscar verbas federais e do governo estadual, procurar apoio das entidades de classe (sindicatos, igrejas, Rotary, e outros..), chamar os empresários, todos tem interesse na diminuição da criminalidade. A insegurança é total, nossas crianças e jovens abarrotam de fatos os noticiários policiais diários nos órgãos de imprensa da nossa cidade.
A legislação trabalhista só permite o trabalho a menor de dezoito anos, na condição de aprendiz, que esteja freqüentando curso profissionalizante. Os cursos profissionalizantes existentes, na sua maioria, são realizados por instituições particulares e tem custos que muitos não podem pagar. Então cabe ao poder publico oferecer programas educacionais, de esporte e lazer, de artes, oficinas e cursos profissionalizantes e outros, isso para cada comunidade ou bairros. Seria a prevenção, o antídoto para ocupar a criança e o jovem e não deixá-lo a mercê da criminalidade. Por outro lado, a polícia, os Órgãos de proteção a infância e a juventude, e até o Ministério Publico, cumprindo com seus papéis e tomando as medidas necessárias para coibir o que se vê, principalmente nas noites de quinta a domingo em nossa cidade: Jovens, muitos menores, reunidos na porta de clubes, bares e conveniências, bêbados, armados e tirando a vida uns dos outros por qualquer motivo.
Há uma frase do escritor Paulo Freire que assim diz: "Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda."