Pertencer a um TEKOHARÃ indígena no Mato Grosso do Sul é com certeza o ato mais extremo de proclamação da terra, da vida e do futuro. Depoimentos dos indígenas que moram nesses espaços de luta pelo território perdido denunciaram que os que para eles são “recintos do futuro”, são também albergues de “punhados de jagunços”.
Os Kaiowa-Guarani de Mato Grosso do Sul decidiram chamar aos “acampamentos” de tekoharã, no primeiro encontro de representantes de comunidades que estão em situação de acampados. A atividade foi realizada no tekoharã Ita´y, município de Douradina, no ultimo fim de semana.
Lideranças, homens, mulheres, crianças, rezadores e jovens de 27 tekoharã partilharam a situação em que se encontram e traçaram formas de resistência contra os diferentes tipos de violência aos que se enfrentam diariamente.
Os tekoharã Kaiowa-Guarani existem rodeados de jagunços. São pontos de mira dos pistoleiros. Os relatos de violências diretas abundaram durante o encontro. Muitos nas beiras das estradas federais e estaduais, melhoradas e mantidas para o agronegócio, sobrevivem mercê das orlas dos pneus das gigantescas carroças da cana e do desenvolvimento. A vida humana pouco importa. Muitos indígenas já morreram atropelados nas BR, e em todos os casos as crônicas da mídia só proferem: “o motorista fugiu sem dar socorro”.
Só em Apyka´í, perto de Dourados, já morreram três por atropelamento. Os tekoharã da indiferença e dos entraves para o progresso, só escuta de seus agressores, por exemplo: “mata aquele índio invasor”. Se não é com chumbos é com foguetes. Se não é de dia é de noite. Em pleno processo demarcatório das terras indígenas e na iminência da publicação dos relatórios de identificação, os tekoharã têm que desaparecer; isto seria o parecer dos “senhores” da terra, dos produtores rurais. Embora, eles vão brotando no chão. Mas, contraditoriamente, a dignidade indígena é a “festa” dos jagunços em Mato Grosso do Sul. O estado brasileiro faz pouco o nada a fim de parar essa realidade, enquanto o governo deste estado anima direta ou indiretamente tal situação de diferentes formas, segundo as lideranças indígenas.