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Cimi diz que liderança indígena assassinada se desviou após a fama

03 de dezembro 2013 - 21h15 Por Redação Douranews
Cimi diz que liderança indígena assassinada se desviou após a fama

O Cimi (Conselho Indigenista Missionário), órgão de apoio, da Igreja Católica, à questão indígena, divulgou nesta terça-feira (3) uma nota em que aponta três fatores para que a sociedade possa refletir e tentar compreender a morte de Ambrósio Vilhalva, de 52 anos, morto a facadas na segunda-feira (2), no assentamento indígena ‘Guyraroká’, em Caarapó. Entre os pontos elencados, a ‘fama’ pela participação no filme Terra Vermelha teria contribuído para mudar a vida do cacique.

Depois de viajar o mundo, em companhia do diretor e de autores, como o global Matheus Nachtergaele, para divulgar o filme em festivais e eventos, o cacique, conhecido por lutar pelo direito à terra, acabou se dissociando do estilo de vida indígena, segundo o Cimi. Terra Vermelha é uma das obras exigidas para os candidatos inscritos ao vestibular da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), cuja prova acontece neste domingo (9).

Além da “fama dos 15 minutos”, o uso compulsivo de bebida alcoólica agravou o conflito de Ambrósio, que vivia em uma relação poligâmica e era casado com três mulheres. Ele foi morto após uma suposta briga com o sogro, Ricardo Mendes Quevedo, de 54 anos, preso em flagrante pela Polícia Civil.

No mesmo dia da morte de Ambrósio e da detenção do acusado, o Cimi disse que a liderança havia perdido a identidade indígena na região. Na década de 1990, pelo menos 30 famílias que viviam confinadas na reserva Tey’kue, em Caarapó, conseguiram ocupar 60 hectares de uma das fazendas. No entanto, foram expulsas e ficaram na beira da estrada por quatro anos até conseguirem voltar à área.

Os processos históricos de perdas de território e do confinamento em reservas, impostos aos Guaranis-Kaiowá, são o segundo apontamento do Cimi. Para o Conselho, estas experiências foram traumáticas e transformaram abruptamente os modos de vida dos indígenas, além de alterarem a qualidade e o sentido da vida deles.

Dessa forma, o uso compulsivo de bebidas alcoólicas e o ato do suicídio se proliferaram com força. Centenas de indígenas foram atingidas por essa ideia, acredita o Cimi. “Para suportar as tentativas de disciplinamento por parte do Estado e do capital, embriagar-se ou se matar forjaram-se como saídas. E Ambrósio bebia muito”, informa o texto.

O terceiro apontamento do Conselho é o fato de que Ambrósio vinha sendo alertado pela comunidade sobre os problemas que o uso compulsivo de bebidas alcoólicas traziam. De acordo com a comunidade, a liderança estava, cada vez mais, sendo hostil com os indígenas da aldeia.

Mas o comportamento agressivo de Ambrósio surgiu nos últimos tempos. Antes, ele era conhecido por ser um bom yvyra'ja (aprendiz e auxiliar) do pai, que era o ñanderu (rezador tradicional Kaiowá) da comunidade.

Fama e queda

O líder indígena foi um dos protagonistas do filme Terra Vermelha, de 2008. O longa, de co-produção italiana e brasileira sobre a tragédia Kaiowá, foi bastante elogiado pela crítica e teve cinco indicações, entre elas, para o Festival de Veneza. A produção também teve duas premiações.

Para divulgar o filme, Ambrósio viajou bastante em agendas extensas, informa o Cimi. “Depois da exposição e da circulação do Kaiowá em festivais, espaços políticos e outras esferas, em diversos países, ele teria ficado assim, avesso”, divulga a nota.

“Sob severas privações em seu tekoha [terra sagrada] diminuto, a circulação de Ambrósio pelas extensas arenas por onde Terra Vermelha o levou teria acentuado as dissociações causadas pela invasão das terras Guarani Kaiowá, alçando Vilhalva a uma imagem difusa de si próprio”.

Para o Cimi, outros indígenas que atuaram no filme também sofrem com problemas semelhantes. O texto informa que os produtores do filme, possivelmente, desconhecem o fato e muito menos anteviram os efeitos que a “velocidade estonteante com que Ambrósio foi solapado provisoriamente de seu universo social causariam”.

O líder indígena foi morto a facadas na madrugada desta segunda-feira (2) enquanto voltava para a comunidade em que morava. Ele teria chego sangrando em sua casa, onde vivia com as três esposas. A família tentou socorrê-lo e acionou a polícia, mas Ambrósio morreu dentro do barraco.

A vítima estaria bebendo em companhia de amigos, quando o crime aconteceu. A polícia e a perícia técnica apreenderam uma faca com vestígios de sangue e dois indígenas foram levados à delegacia para prestar depoimento. De acordo com o delegado que investiga o caso, Benjamin Lax, não existe no crime conotação de disputa por terras ou algo parecido. “Foi uma briga entre família indígena envolvendo o uso de bebida alcoólica”, explicou ao Campograndenews.

Depois de ouvir duas das esposas de Ambrósio, o delegado decidiu pedir a prisão em flagrante de Ricardo Mendes Quevedo, pai de uma delas. As mulheres são mãe e filha. O caso foi comunicado para o Poder Judiciário.