jc torraca
Há pessoas que passam por uma cidade. E há pessoas que, de algum modo, passam a fazer parte dela.O professor Amauri Tetila é dessas pessoas.
Quando chegou a Dourados, em 1976, vindo de Santo Anastácio, no interior de São Paulo, trazia no currículo o diploma de professor de Educação Física conquistado em Presidente Prudente. Mas talvez nem ele soubesse, naquele momento, que estava trazendo consigo algo maior: uma maneira de acreditar nas pessoas, sobretudo nos jovens, e de compreender o esporte não apenas como competição, mas como escola de vida.
O próprio Amauri, que se tornou amigo e, muitas vezes, conselheiro de seus alunos e ex-alunos, grifou, em um breve histórico de sua trajetória, uma frase do frei holandês Carlos Mesters que define bem o relato a seguir: “O caminho se faz caminhando.”
E o Amauri fez o seu caminhar em terras sul-mato-grossenses, mais precisamente em Dourados, onde, há 50 anos, caminha e ensina caminhar.
Seu caminhar começou na Escola Estadual Reis Veloso, em março de 1976. Ali, entre aulas, bolas, quadras, corridas e treinamentos, começou uma história que se espalharia muito além dos muros da escola.
Porque Amauri nunca pareceu enxergar uma quadra apenas como uma quadra. Ele enxergava possibilidades. Onde faltavam escolinhas, criou escolinhas. Onde faltavam competições, organizou campeonatos. Onde faltavam árbitros, formou árbitros. Onde faltavam espaços esportivos, ajudou a transformar terrenos e áreas públicas em lugares de encontro para a comunidade.
Em 1977, assumiu a Diretoria de Esportes da então Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Dourados. A missão era organizar um setor que, segundo seu próprio relato, estava abandonado. E talvez aí esteja uma das marcas mais bonitas de sua trajetória: diante de algo que precisava ser feito, Amauri raramente perguntava se era fácil. Perguntava por onde começar.
Sabiamente, ele começou pelas crianças.
Vieram as escolinhas de voleibol, handebol, basquete e atletismo, no masculino e no feminino. Vieram professores, treinadores, competições e um calendário esportivo que passou a oferecer à cidade aquilo que hoje parece tão natural: a oportunidade de praticar esporte, de torcer, de competir e, principalmente, de conviver.
Em um recente Encontro de Árbitros e Ex-Árbitros, o professor contou-me, com o entusiasmo de um iniciante, como era Dourados no campo esportivo quando aqui chegou. A cidade ainda não dispunha de espaços destinados especificamente à prática esportiva e ao lazer. Amauri não se conformou. Foi atrás deles.
Lembrava, com o semblante sereno de quem sabe ter cumprido sua missão. A partir da mobilização e com apoios imprescindíveis, nasceram os CEPERs (Centros Esportivos e Recreativos). Primeiro no BNH I Plano, inaugurado em 1979. Depois em outros bairros. Vieram espaços no Segundo, Terceiro e Quarto Planos, além dos parques Arnulpho Fioravante e Antenor Martins e estruturas no CSU do Jardim Água Boa. Mais tarde, o esporte alcançaria também os distritos.
Enquanto ouvia os relatos do professor, filminhos iam passando pela minha mente, levando-me de volta aos idos dos anos finais da década de 1970. A quadra da Reis Veloso, o campinho gramado do BNH 1, a quadra da antiga AABB, ali no centro da cidade, e tantos outros lugares que guardam histórias e lembranças de uma época tão especial.
Isso dá um livro!, exclamei.
Quantas crianças correram nesses espaços sem jamais imaginar que, antes de existirem, alguém precisou sonhar com eles? Quantos atletas começaram ali? Quantas amizades nasceram numa arquibancada, numa quadra ou ao redor de uma bola? Quantas histórias familiares começaram num campeonato de bairro?
É impossível medir o tamanho de uma obra assim apenas em metros quadrados de quadras ou no número de competições realizadas. Porque o verdadeiro patrimônio de Amauri está nas pessoas. Ele mesmo reconhece isso quando olha para trás e diz que, embora tenha repassado parte dos conhecimentos adquiridos nas universidades, aprendeu muito mais com as pessoas que caminharam com ele.
Talvez essa seja a frase que melhor explique sua trajetória.
Amauri não caminhou sozinho. E também nunca fez questão de caminhar sozinho. Ao longo dos anos, formou professores, árbitros, dirigentes, atletas, colaboradores e, acima de tudo, amigos.
E o caminho foi se fazendo. No SESI, onde chegou em 1980 para ajudar a implantar as áreas de Educação, Esporte e Cultura, novamente encontrou uma cidade carente de profissionais para a arbitragem. E novamente fez aquilo que parecia ser sua especialidade: transformar uma dificuldade em oportunidade.
Buscou nos próprios alunos da Reis Veloso – e não podia ser diferente - aqueles que poderiam aprender. Deu espaço aos jovens. Ensinou, orientou, formou. E muitos daqueles meninos que começaram auxiliando em jogos menores acabaram se tornando árbitros.
Amauri também teve a coragem de mexer em regras, costumes e preconceitos. No futsal, ajudou a introduzir a dupla arbitragem muito antes de ela ser oficialmente adotada. Criou mecanismos para formar novos árbitros ao lado dos mais experientes. E, num ambiente que muitos consideravam exclusivamente masculino, abriu espaço para que mulheres atuassem como mesárias e assistentes de arbitragem.
Quando disseram que elas poderiam se sentir ofendidas pelos palavrões dos jogadores, sua resposta foi simples e, ao mesmo tempo, reveladora: Se elas estavam ali para trabalhar, cabia aos homens aprenderem a respeitá-las. E elas venceram. Não pela concessão de ninguém, mas pela competência.
Talvez Amauri tenha sido, durante toda a vida, um professor muito maior do que o título profissional poderia sugerir. Professor de Educação Física, sim. Mas também professor de cidadania, de convivência, de oportunidade e de persistência.
O caminhar do professor Amauri Tetila ultrapassou os limites de Dourados. Em 1991, levou sua experiência para a vizinha Itaporã, onde encontrou, mais uma vez, um setor esportivo praticamente inexistente. E, novamente, começou pelo começo: organizou calendários, criou escolinhas, promoveu competições e investiu na formação de profissionais e na estruturação da arbitragem.
Os resultados apareceram. Atletas foram revelados. Alguns chegaram ao futebol profissional. Mas, para Amauri, talvez a maior vitória tenha sido outra: ver jovens daquela cidade se tornarem professores de Educação Física.
Porque quem ensina esporte sabe que medalha é importante, mas não é tudo. Uma medalha pode envelhecer, uma profissão permanece. Uma quadra pode ser reformada, uma vida transformada não volta a ser a mesma.
Amauri costuma dizer que por onde caminhou, encontrou grandes pessoas que hoje pode chamar de amigos. É aí que sua história deixa de ser apenas um currículo e se transforma em memória. Porque os cargos passam, os campeonatos terminam, as administrações mudam, as placas envelhecem e as regras são alteradas. Mas os amigos permanecem.
Alguns, infelizmente, apenas na lembrança. E Amauri faz questão, sempre, de homenagear aqueles que partiram para outro plano: Aral Van Suypene, Edgar da Silva, José Flor (Careca), Valdevino Cruz, Preto e Baltazar Marques.
É como se, ao contar sua própria história, ele dissesse que ninguém constrói nada sozinho — e que aqueles que estiveram ao seu lado também fazem parte da obra.
Talvez por isso tantas homenagens tenham vindo ao longo dos anos: Funcionário Padrão do SESI, reconhecimento profissional, destaque desportivo, Cidadão Benemérito de Dourados, Professor de Educação Física Sem Fronteira, Medalha de Comendador, Professor do Ano, Medalha Benemérito Professor de Educação Física e tantas outras.
Mas há uma homenagem que nenhuma instituição consegue conceder. É aquela que nasce quando alguém diz: “Eu conheci o professor Amauri.”
E imediatamente surge uma história... Um campeonato, uma escola, uma arbitragem, uma viagem, uma quadra, uma bronca, uma risada, uma oportunidade que alguém recebeu, uma porta que se abriu, um amigo que ficou.
Amauri Tetila parece ter levado ao pé da letra a frase do frei Carlos Mesters, segundo a qual “o caminho se faz caminhando”. Caminhou pelas escolas, caminhou pelas quadras, caminhou pelos bairros, caminhou pelos campos, caminhou por Dourados, por Itaporã. O professor caminhou pelo esporte e, sobretudo, caminhou ao lado de pessoas.
Hoje, quando se olha para sua trajetória, talvez seja impossível separar o professor da cidade que ajudou a construir. Ele não só caminhou, pavimentou caminhos. Caminhos para o esporte, caminhos para os jovens, caminhos para novos profissionais, caminhos para novas oportunidades. E caminhos para a amizade.
Caminhos feitos com bolas, apitos, quadras, sonhos, ensinamentos e, principalmente, pessoas.
Por isso, homenagear o professor Amauri Tetila é mais do que lembrar o que ele fez. É reconhecer quem ele é, o que representa para todos aqueles que tiveram e têm o privilégio de caminhar com ele.
* O autor é jornalista, ex-aluno e amigo de Amauri Tetila